Capítulo 46

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Em um impulso me afastei do corpo desfalecido de meu pai em minha frente. O meu choro era tão compulsivo que eu não conseguia aguentar o peso do meu próprio corpo.

Então somente me joguei nos braços de minha mãe que tentava me manter de pé.

A dor que eu sentia em meu peito era imensamente insuportável. Eu desejava a todo momento estar ali no lugar dele. Não era ali que ele deveria estar.

Não devia ser..

Os soluços altos como nunca poderiam fazer com que eu sentisse vergonha em qualquer outra ocasião. Mas nesse momento nada me importava.

Meu pai se foi diante dos meus olhos.

Nem ao menos com uma segunda chance consegui fazer com que todos ficassem comigo.

Senti também que minha mãe já não me aguentava mais em seus braços, me passando então para outro que tentava me acalmar depositando as mãos em minha cabeça. Eu não conseguia enxergar quem era – e também não queria saber – somente queria expulsar toda a raiva, frustração e dor que eu sentia dentro de mim naquele momento.
Meu peito doía e o ar parecia me faltar. É irônico lembrar que eu, que sou capaz de tirar a dor das pessoas, agora sinto essa como se eu também fosse morrer.

A dor era demais para mim, não sabia quanto tempo mais a aguentaria.

Até minha visão embaçada pelo choro dar lugar a escuridão.

E minhas forças irem embora de vez.

*********

Abri meus olhos com uma certa dificuldade. Passando as mãos nos mesmos, senti um pequeno incômodo, uma ardência nas pálpebras com certeza causada pelo choro.

Não fazia ideia de onde estava. Olhando em volta, um quarto que certamente não era o que eu estava acostumada, tomou conta de minha visão.

Esse não é o meu quarto.

Me ajeitando para sentar na cama de casal em que estava, todo aquele  branco dos lençóis e travesseiros fizeram com que meus olhos ficassem incomodados com tamanha claridade.
Olhando em volta, vi que ao contrário da minha cama, as paredes eram mais escuras por causa das madeiras de que eram feitas, mas a luz do sol as iluminavam. Do meu lado direito, estava uma janela com um acolchoado que eu certamente usaria para ler alguns livros olhando para as árvores verdes e o céu lá fora, do meu outro lado, na parede estava meu painel de fotos, do mesmo jeito em que eu havia o deixado antes de partir.

Foi tudo um sonho? 

A cômoda embaixo do painel somente estava com uma luminária e três livros sobre ela. Ao lado dessa cômoda, uma porta aberta que dava em um corredor branco, mas sem nada em suas paredes. Olhando para a frente de minha cama, duas portas estavam lado a lado e eu não fazia ideia do que elas escondiam.

Retirei a coberta de cima de meu corpo e percebi que havia trocado de roupa, estava agora com um moletom cinza e meias brancas aos pés. Meu coração parou por um minuto e tudo o que me vinha na cabeça naquele momento, era o pensamento de que nada daquilo havia acontecido.

Escuto então passos se aproximando da porta que dava para o corredor branco antes percebido por mim. Me assusto quando um pequeno ser de cabelos na altura dos seus pequenos ombros, para na abertura da porta e me encara.

Ela está vestida em um pijama de frutas com o fundo branco, que realça ainda mais a cor de seus castanhos cabelos.

- Oi.- Ela inclina sua cabeça levemente para a direita cerrando seus olhinhos para mim.

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