Uraraka demorou um pouco para pegar no sono. As palavras de Bakugou dizendo que Deku e seus amigos a subestimavam ainda martelavam em sua cabeça. Ora, esse era o propósito desse treinamento com ele, não? Ficar mais forte para se sentir à altura do garoto de cabelos verdes e, de quebra, fazer com que todos percebam que ela não é tão indefesa quanto pensam.
Revirou-se de barriga para cima, encarando o teto branco. Talvez eles só a subestimassem porque ela não se achava forte o suficiente. Ou talvez ela não se achasse forte o suficiente porque todos a subestimavam... Talvez ela quisesse ficar à altura do Deku para sentir que havia conseguido ficar forte e seus amigos perceberiam que ela era muito mais do que aparentava. Ou será que era só porque queria que um amigo percebesse sua evolução e lhe olhasse com mais afeto?
Esfregou as mãos no rosto, claramente inquieta e confusa. Nem Uraraka se entendia direito de vez em quando. Mas o que seria de sua fase adolescente se não houvessem essas confusões, não é mesmo?
Jogou os braços ao lado do corpo e fechou os olhos tentando dormir. Pensou em como seria seu futuro a partir dali. Seria forte, seria mais do que aparentava e seria notada. Seus pensamentos novamente voltaram a como seria quando Deku a notasse com outros olhos. E quando menos esperou, estava mergulhando no mundo dos sonhos.
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Os sábados costumavam ser tranquilos em Heights Alliance. Muitos alunos iam visitar suas famílias, pediam permissão para sair em grupos ou ficavam descansando em seus quartos.
Uraraka costumava dormir até mais tarde, tomar café sozinha e depois voltar ao seu quarto para organizá-lo e estudar um pouco. Dificilmente visitava os pais, afinal eles costumavam trabalhar aos sábados e gastava muito ela ter que ficar indo e voltando. Não que ela achasse um gasto desnecessário ou que não gostasse de visitá-los, muito pelo contrário, ela só não queria atrapalhar as finanças da família. Então ela acabava por sempre ligar para eles quando podia, que era o seu jeito de matar a saudade sem gastar muito.
Mas esse sábado estava ficando diferente. Primeiro que a morena não acordou tão tarde. Segundo que sabia que quase todos os colegas, incluindo Mineta, estavam ausentes naquele fim de semana. Terceiro que, sabendo do segundo item, se arriscou a ir tomar café sem nem se dar ao trabalho de trocar o pijama.
Desceu do elevador olhando para todos os cantos. Tendo a certeza que estava sozinha no térreo, correu para a cozinha e foi preparar seu café da manhã. Decidiu por uma omelete caprichada com chá. Estava distraída preparando tudo, cantarolando uma música qualquer enquanto pegava os ingredientes na geladeira e nem percebeu que alguém se aproximava.
Bakugou havia acabado de chegar na cozinha e se deparou com alguém com metade do corpo enfiado na geladeira. Não podia negar que havia reparado muito bem que era uma garota, já que seria bem difícil algum dos garotos usar uma calça de pijama cheio de unicórnios.
A figura finalmente saiu de dentro da geladeira e fechou a porta. Virou-se desajeitada e só então viu que havia outra pessoa ali. Um grito fino ecoou pela cozinha e Uraraka fez tudo que estava na sua mão flutuar sem querer.
— B-bakugou-kun... O que faz aqui? — perguntou assustada.
— Não sei se você sabe, mas eu tomo café da manhã — respondeu sarcástico.
— Ah, s-sim... — Deu uma risadinha sem graça e começou a empurrar os ingredientes flutuantes para cima do balcão, os liberando em segurança. — Quer omelete também?
O garoto deu de ombros e sentou-se em uma das cadeiras na frente dela. Uraraka ainda não conseguia entender o colega direito, mas imaginou que aquilo era um sim. E em poucos minutos a morena havia feito omeletes e chá para os dois. A controladora da gravidade estava bem tranquila e confortável na presença do colega. Bakugou poderia ser rude e explosivo, mas ela admirava a sinceridade e a determinação dele — não tanto quanto admirava Midoriya, claro.
Sentou-se na frente do loiro e começou a comer. Percebeu que o colega havia se levantado e o seguiu com o olhar, enquanto o loiro ía até a geladeira pegar alguma coisa e voltava. Não pôde conter sua surpresa ao ver quão entretido ele estava despejando pimenta e mais pimenta na omelete.
— Você gosta de comida apimentada, né? — comentou encarando a omelete e depois levantando o olhar para o garoto.
— E daí?
— Fica bom? — disse, ignorando a grosseria do colega.
— Sempre fica melhor com pimenta.
A garota analisou por alguns instantes a situação. Esticou o braço e pegou o vidrinho de pimenta que estava perto do loiro.
— Ei, isso é meu, Cara Redonda — comentou irritado.
Uraraka o ignorou novamente e colocou um pouco em um pedacinho da sua omelete. A garota mastigava a comida vagarosamente, como se estivesse degustando em um programa culinário e tivesse que dar uma nota final. Fez uma expressão que dizia não ter achado tão mau assim e deu de ombros.
— Até que não é ruim.
— Eu estava esperando você começar a chorar e pedir leite — comentou arqueando uma sobrancelha.
— Não sou o que todos esperam — ela respondeu sorrindo.
— Não fique se achando, Cara Redonda — ele disse com um sorriso provocador. — Vamos ver como se sai no treino daqui a pouco.
A garota arregalou os olhos levemente.
— Você vai treinar agora de manhã?
— Mas é claro, caralho! Acha que acordei cedo pra ficar fazendo nada?
— Achei que era para estudar, ué.
— Eu estudo depois do almoço — ele disse se levantando para levar o prato até a pia.
A garota enfiou rápido o último pedaço da omelete na boca e se levantou também, indo atrás dele.
— Mas então você não vai treinar de noite?
— Vou — ele disse como se a resposta fosse óbvia.
— Bakugou-kun, eu tô perdida. — Ela franziu o cenho. — Você precisa me passar os seus horários para eu conseguir te acompanhar!
Bakugou revirou os olhos e a olhou irritado.
— Tá, eu não vou exatamente treinar agora. Eu vou sair pra correr — ele disse saindo da cozinha, sendo seguido pela garota. — Eu saio para correr todos os fins de semana e, de vez em quando, nos dias de semana antes das aulas. Todos os dias por volta das 18h eu saio para treinar no ginásio. Sem exceções.
O garoto se jogou no sofá da sala, enquanto a garota falava animada ainda de pé.
— Uau, seu treino é bem rigoroso mesmo. Ainda bem que pedi ajuda para você, Bakugou-kun! Tenho certeza que vou conseguir melhorar muito com a sua ajuda! — ela disse levantando a mão determinada.
— Não é rigoroso, é o mínimo se você quer se tornar o número um — ele disse presunçoso. — E você tá fazendo o que aqui ainda?
— Quê? — A garota tombou a cabeça confusa.
— Eu tô pronto pra sair pra correr, Cara Redonda. Vai logo trocar essa caralha de pijama. Você tem 10 minutos.
— Ah! Claro! Eu tô indo! Eu vou ser a mais rápida possível, vou tentar chegar aqui de volta antes dos 10 minutos!
— Nove minutos...
— Eu tô indo! — ela gritou desesperada enquanto saía correndo para o elevador.
O loiro revirou os olhos e jogou a cabeça no encosto do sofá. A alegria constante da garota às vezes o irritava. Era impossível alguém estar tão feliz e sorridente todos os dias, o dia todo. Mas aquele pequeno elogio dela, a alegria que ela teve por ter o escolhido, a certeza de que melhoraria com a ajuda dele... Tudo isso acendeu uma brasinha no fundo — beeeeem no fundo — do seu coração. Ele ainda não sabia, mas essa brasinha só aumentaria.
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Training days
FanfictionUraraka queria fazer Midoriya prestar atenção nela, fazer com que ele viesse até ela. E para isso ela precisava se sentir no mesmo nível que ele. Precisava ficar ainda mais forte. E foi então que ela teve uma das ideias mais absurdas que já havia ti...
