CAPÍTULO QUATRO

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╔╦══ ⋆ ⋆ ⋆ ✦ ⋅ ✩ ⋅ ✦ ⋆ ⋆ ⋆ ══╦╗
ᵍᵒ ᵃʰᵉᵃᵈ ᵃⁿᵈ ᶜʳʸ, ˡⁱᵗᵗˡᵉ ᵍⁱʳˡ
ⁿᵒᵇᵒᵈʸ ᵈᵒᵉˢ ⁱᵗ ˡⁱᵏᵉ ʸᵒᵘ ᵈᵒ
ⁱ ᵏⁿᵒʷ ʰᵒʷ ᵐᵘᶜʰ ⁱᵗ ᵐᵃᵗᵗᵉʳˢ ᵗᵒ ʸᵒᵘ
ⁱ ᵏⁿᵒʷ ᵗʰᵃᵗ ʸᵒᵘ ᵍᵒᵗ ᵈᵃᵈᵈʸ ⁱˢˢᵘᵉˢ
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Não voltamos a falar sobre o assunto dos cortes durante todo o tempo em que continuamos andando pela cidade. Já passava do meio-dia quando paramos no Vintage Coffee. Miles tomava um milk-shake enquanto eu beliscava algumas batatas-fritas. Estávamos sentados um de frente para o outro. O silêncio ainda existia, mas já não era constrangedor como antes.

Eu queria puxar assunto, dizer qualquer coisa que mantivesse aquilo minimamente normal, mas Miles não dava brecha. Suas respostas eram sempre curtas. Secas. Encerravam qualquer tentativa de conversa antes mesmo de começar.

— Qual é o problema entre você e a Kate? — perguntei depois de um tempo.
Ele me encarou com aquele olhar vazio por alguns segundos, como se estivesse decidindo o quanto valia a pena responder. Então respirou fundo.

— Antes de virmos pra cá, a Kate teve um surto psicótico. — Deu uma risadinha. — E colocou a culpa em mim. Por algum motivo.

Ele ria enquanto falava, me observando como se esperasse que eu acompanhasse. Mas eu apenas franzi o cenho. Algo dentro de mim dizia que aquilo não tinha graça nenhuma.
Quando o riso cessou, ele voltou a me olhar.

— Ela não parece o tipo de pessoa que teria um surto psicótico — comentei, levando mais uma batata à boca.

— Você também não parece o tipo de pessoa que se corta — respondeu, com ironia.

Respirei fundo, controlando a vontade imediata de socar a cara dele.

— Você não me conhece. Então não aja como se soubesse qualquer coisa sobre mim, ok? — retruquei, já irritada. O jeito frio e provocador dele me tirava completamente do sério.

— Você tá certa. Eu não sei nada sobre você — disse, depois de tomar mais um gole do milk-shake de morango. — Mas eu tenho um… superpoder. Eu sei ler as pessoas.

Ergui uma sobrancelha, tentando decifrá-lo. Queria entender o que ele escondia por trás daquela postura de garoto cruelmente indiferente. Não consegui.

— É mesmo? — perguntei. — E o que está escrito em mim?

— Essa é fácil. — Ele se inclinou levemente para frente. — Você é uma garota depressiva. Sofre de uma ansiedade bem severa, dá pra perceber pelos seus trejeitos. — Cada palavra parecia medida. Calculada. — Você pede socorro em cada movimento que faz. Sabia?

Minha garganta fechou. Eu queria chorar. Porque ele estava certo.

— Eu não sei… — continuou. — Acho que você tem algum problema familiar. Ou algo assim. Não tenho certeza, mas é o que parece.

Depois disso, voltou a beber seu milk-shake como se não tivesse acabado de me desmontar por dentro.
Baixei o olhar para a mesa. Algumas lágrimas caíram perto das batatas-fritas. Passei a mão pelo rosto rapidamente, tentando afastá-las antes que ele percebesse.

𝗖𝗥𝗔𝗭𝗬 𝗜𝗡 𝗟𝗢𝗩𝗘 ᵐᶦˡᵉˢ ᶠᵃᶦʳᶜʰᶦˡᵈOnde histórias criam vida. Descubra agora