Há certas coisas que você jamais esquece na vida: a primeira bicicleta, o primeiro beijo, o primeiro smartphone...
Ou quando sua velha resolve acordar a casa inteira quebrando toda a louça de vidro e decide surtar. Você literalmente pisa em cacos de vidros. Nada mais de marido, filhos ou uma família. É pedir contas em rito sumário. E fim de papo.
Tudo no início é difícil demais. Só que foi pior e mais difícil a volta. Você olha para o rosto de uma estranha e as feições são vagamente familiares. É só um documento constando o nome de uma pessoa que você não conhece mais na sua certidão. É mais ou menos como varrer a casa e colocar a sujeira debaixo do tapete.
A gente até finge que esquece. E é uma mentira. Torturas psicológicas jamais são esquecidas. Ficam por uma vida inteira. Provavelmente quando eu tivesse condição ia fazer terapia para o resto da minha vida.
Mas eu sobrevivi a tudo isso e me considero um vencedor. Detestava acordar de manhã ouvindo o som do vidro se espatifando e o choque metálico das panelas desabando dos armários e prateleiras... Acontecia muito quando ela ouvia um não. E as chantagens psicológicas...Eu quase morri por causa de uma úlcera no estômago.
Palavras. Por que bater ou espancar se as palavras deixam marcas profundas que você nunca esquece? Elas voltam quando menos se espera. Cara, essas coisas machucam e te marcam para a vida inteira. Minha velha era a melhor.
Você sempre vai ser um derrotado. Nunca vai ser nada na vida!
Eu tinha conseguido entrar na faculdade e até conseguido uma bolsa. Ai, quando sai de casa e tentei ficar na mesma cidade as coisas complicaram um pouco. tinha até conseguido melhor de saúde e ganhado uns quilos.
Eu vou te matar. Vou pegar as chaves do carro e passar com ele em cima de você.
Essas palavras sempre acabam ecoando em minha mente toda vez que a disciplina falhava. Nas noites em que acordava assustado ou nervoso com os malditos pesadelos ou com as insônias. E o ninguém nunca desconfiou da respeitável senhora Nordans. É sempre a questão da aparência que importava para sociedade. Uma senhora respeitada no meio social em que vivia. Quem ia dizer , não é mesmo? Eu era apenas o filho problemático.
Lembro da vez que me escondia debaixo da cama e ela ameaçou colocar fogo enquanto segurava a vassoura. Eu preferia que ela nunca tinha voltado. E ela sabia disso enquanto encenava o Oscar do Ano. Tinha um prazer sádico de me levar ao limite com ameaças até me ver chorar.
Você vai morrer sozinho e na miséria. Nunca, nunca vai seu um vencedora como eu. Eu vou matar você como se faz com porcos.
Ainda me lembro bem dela falar isso enquanto segurava dois facões de cozinha, amolando as lâminas uma contra outra.
A primeira coisa que me fez despertar foi exatamente a certeza que as ameaças agora eram reais. A sensação tão conhecida de medo e perigo. E as dores. As lembranças voltavam num ritmo alucinante.
Estou preso outra vez? Eu fugi...Consegui fugir dela...
Foram preciso alguns instantes para minha respiração voltar ao normal. Eu queria gritar mostrando para todo mundo que não era o filho ingrato que me achavam. O medo... não era meu amigo preferido.
Eu tinha acreditado que tudo aquilo tinha ficado no passado.
A festa de calouros-ah, não, a festa de calouros- a iniciação da fraternidade-ai, Deus, não a iniciação da fraternidade- a van-ai, não a van, por favor. A bebedeira e o grupinho de veteranos. Por favor, não. Eu me sentia horrível. Destruído.
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Na cama com um Alien
Ficção GeralEra para ser apenas mais um festa de fraternidade com os veteranos recebendo os calouros e muitos trotes. Michael era uma garoto que tinha feito de tudo para conquistar aquele lugar e de repente se sentia totalmente desanimado. Como calouro tímido...