Na esquina do condomínio duzentos e alguma coisa, lá na última casa vermelha em frente ao pé de manga. Era ali que morava a história toda.
Bom, não peço para que acreditem em mim,mas se gostam de boas histórias, sempre digo que elas se tornam realidade. Lá na história das minhas lembranças onde meu passado dança ciranda nas ruas infestadas de gritarias e gargalhadas da criançada, que se reunia toda tardinha depois da igreja,depois do trabalho do pai e da viagem da mãe. Um levava a corda, o outro levava a bola e a outra levava algumas xícaras de plástico com água até na boca onde dizia ser "chá". Uns viravam jogadores de futebol, outros viravam atletas, e outros viravam até mesmo astronautas, diante de todo o espaço a ser explorado naquela rua. Todo mundo queria ser gente diferente. E era isso que fazia todo mundo se divertir. Era como uma rua de teatro, onde todos tinham uma máscara e o público era nada menos que eles mesmos. Parecia que a brincadeira não tinha fim, até o sino da igreja tocar e um cisco aparecer na janela da casa vermelha. Todos paravam. Todos se olhavam. Alguém calou a boca da rua. E ali, pelo portão da casa, aparecera a história. Era Dônêlí.
Já ouviu nome mais acentuado que esse? Bom, eu não. Na verdade, ninguém nunca soube o nome verdadeiro dela. Uns diziam ser "Dona Eli", outros diziam "Dona Leni", mas os donos da rua, chamavam de Dônêlí.
Há muito do que contar para uma história sobre uma história. Afinal, ela era uma história desconhecida. Não tinha nem título ao certo. Parecia ser uma quarentona, uns diziam que seus olhos eram azuis, outros diziam que eram verdes e outros diziam que ela nem tinha olhos. Seus cabelos eram desejados por todas as meninas da rua, que quando a viam, passavam a mão em seus cabelos tentando ajeitá-los, com um desejo lá no fundo do peito de querer ser tão bonita assim. Os meninos então, nem se fala! Ela era aquela paixão passageira que passava e encantava a todos. Em seus braços, ela carregava uma cesta de flores, não me perguntem o nome nem o tipo, por que para os donos da rua, flor é tudo flor, sem essa coisa de flor Maria, Joana e Joseca. E por onde ela passava, ela dava uma flor. As meninas preferiam colocá-las em seus cabelos, já suados e "em pé", como dizia minha tia, de tanta correria e brincadeira. Os meninos, alguns deixavam no canto da calçada com a promessa que nunca foi cumprida de "vou lembrar de buscá-la quando for embora", outros enterravam a flor em busca de novas flores, e outros mais espertinhos guardavam para dar para suas mães, para ganhar um elogio e uma sobremesa na hora do jantar. Dônêlí passava por toda a rua, e lá no outro final da rua, ela desaparecia. Uns diziam que ela ia para as outras ruas entregar flores , outros diziam que ela ia buscar mais flores e outros até diziam que ela sumia, voara dali.
Ninguém sabia para onde ela realmente ia, só sabiam que no outro dia de tardinha, depois que o sino tocar, ela estaria ali, entregando suas flores. Depois que ela ia, a boca da rua se calava e os olhos da criançada se abriam, arregalados e cheios de esperança. Até um gritar:
-PIQUE PEGA, ESTÁ COM O PEDRO!
E a correria permanecia.
Parecia que a rua não dormia, a rua não se cansava, a rua não tinha relógio para ter hora de parar. Até a hora que a mãe do Juca chegava e o levava para casa, e logo atrás, um exército de mães chegavam e levavam seus filhos para casa. Era a maior pirraça para ir embora. A criançada se despedia e a rua os abraçava.
E era assim o dia a dia dos reis e rainhas daquele condomínio. Dônêlí? Sempre aparecia. De acordo com a prima da Jussara, ela chegava á noitinha, catava as flores que os meninos esquecidos deixavam na calçadas e as guardava para distribuí-las novamente. Uns diziam que era mágica. Outros, diziam que era jardineira. E outros, diziam que era história.
Até que um dia, o sino tocou. A Dônêlí não apareceu. A rua calou-se sem ser interrompida. Cadê ela?
O Juca e a Clara não viram nada. Nem o Pedro nem a Jussara. A Letícia que era mentirosa, disse que viu sua sombra atrás do pé de manga. Não tinha nada ali. E a casinha? Ela só podia ter dormido e esquecido de ir distribuir as flores. Então, as meninas do chá pegaram todas as suas xícaras e talheres de plástico e começaram a batucar, soando um som agudo e sem um tom ao certo. Elas podiam acordá-la. Ninguém ligava para o som. Eles só queriam a Dônêlí.
Não apareceu nada.Os meninos tiveram uma grande ideia. Lembraram-se de quando jogaram a bola lá na janela do seu Jô, e como ele ficou bravo. Ele logo apareceu e devolveu a bola, bravo porém presente. E assim fizeram. Jogaram na janela da frente. Eles não ligaram para o estrago. Eles só queriam a Dônêlí.
E nada apareceu.Um ruído de silêncio aparecera na rua. Então, para os fortões e mais altos da rua, só restou invadir a casa vermelha. Pobre Dônêlí! Imagina o susto se ela acordasse e visse todos os donos da rua em sua casa! Ninguém ligava pro susto. Eles só queriam a Dônêlí.
E quando os grandões pulavam o muro estreito de ferro, eles conseguiram abri-lo, deixando todo mundo entrar na última casa da rua.
E foi ali que viram, no quintal muito maior que a rua, um canteiro enorme com tantas flores que, quando me contaram, estendiam os braços até no seu limite e diziam "era desse tamanho". Era muito grande. Dava para ter uma nova rua, uma nova ciranda, uma nova história. Mas a pergunta permanecia: Cadê a Dônêlí?
E até hoje, nenhum dono da rua conseguiu encontrá-la. Será que ela morava lá mesmo ou só ia lá buscar as flores? Será que ela se mudou sem deixar recado? Será que ela se escondeu no pé de manga? Ninguém sabia e ninguém sabe. Eles me disseram que logo ali na esquina, quando o sino toca e tudo se cala, eles pulam o portão da casinha vermelha, pegam todas as flores possíveis e distribuem pelo condomínio.
As meninas fazem coroas de flores e tranças com algumas pétalas enroscadas em seus cabelos suados, e os meninos, uns continuam dando elas para suas mães para receberem um agrado, e outros, dão buquês para as mocinhas, que ficam com suas bochechas rosadas ao receberem esse ato de "amor"! E Dônêlí? Uns dizem que Dônêlí é uma história sem título, sem começo e sem fim, outros dizem que ela volta á noitinha para aguar as flores, e outros dizem que Dônêlí é mera poesia.
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Posso te contar uma história?
Cerita PendekÉ que ás vezes a poesia vira conto e não tem como escapar. Essa "obra" é feita de alguns contos que escrevi nas horas em que a inspiração chega de fininho e te pega de surpresa.
