Capítulo 2

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Enquanto seguia o guarda pelos corredores, a fúria crescia dentro de mim. Minha mãe havia ordenado que eu fosse trancada em um quarto quando eu poderia ajudar novamente. Sempre que um novo poder se manifestava, o mesmo ritual se repetia: isolamento, novas medidas, estudos, tentativas de controle. Faziam-me reduzir minhas habilidades, conter aquilo que eu era — e eu permitia. Não por concordar, mas por não saber como reagir. Eu também não compreendia totalmente meus dons; restava-me apenas esperar.

O que nunca fez sentido, porém, era o fato de que eu já possuía os poderes dos Grão-Senhores. Havia anos que nada de diferente surgia... até agora. Esse novo dom não pertencia a nenhuma corte. Nunca ouvira falar de alguém capaz de prever o futuro.

Caminhei pelos corredores admirando os quadros antigos, tentando me distrair. Em certo momento, observei o guarda à minha frente. Ele era espetacular. Seu andar era firme, quase predatório, como se tivesse o mundo sob controle. Algo nele impunha respeito.

Chegamos ao meu quarto. À frente, ficava o aposento de Tamlin. O guarda abriu a porta e, quando me virei para entrar, percebi que ele me observava atentamente. Permaneci parada, encarando-o. Havia em seu olhar uma curiosidade quase inquieta, como se tentasse me decifrar.

Sustentei o olhar por mais alguns segundos antes de perguntar:

— Por que me olha como se estivesse tentando me entender?

Talvez eu devesse ter sido mais discreta, mas a curiosidade falava mais alto.

Ele pareceu surpreso, mas respondeu com sinceridade:

— Desculpe. Estou tentando entender por que sua família a esconde. Você parece... extraordinária. Por que esconderiam alguém assim?

Diante daquele homem, senti uma pontada de culpa. Quis contar a verdade — dizer que eu era a verdadeira aberração daquele mundo, que por trás da aparência admirável havia poderes capazes de causar medo. Que eu possuía dons idênticos aos deles, talvez até superiores. Que eu poderia controlar todas as cortes. Que eu era mais forte.

Mas, em vez disso, recorri à velha mentira.

— Eles só querem me proteger dos machos do mundo feérico — respondi, abrindo meu sorriso mais convincente.

O rosto dele se contorceu levemente, como se percebesse a fragilidade da história. Sem insistir, indicou que eu entrasse no quarto. Obedeci.

Já sozinha, questionei-me por que ele não acreditara. Por que parecia tão diferente dos outros? O que havia de especial nele?

Deitei-me na cama, ciente de que não sairia dali tão cedo. Meu quarto era imenso: banheiro de mármore, um closet repleto de vestidos magníficos, paredes brancas e uma grande estante de livros ocupando uma lateral inteira. Havia uma sacada próxima à mesa onde eu costumava estudar. A cama ficava ao lado da porta, coberta por lençóis creme. Do lado de fora, o céu permanecia tão magnífico quanto sempre fora.

Fechei os olhos, revivi mentalmente tudo o que havia acontecido naquele dia... e adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com o som suave de água sendo preparada. Mary, minha criada, arrumava a banheira. Observei-a em silêncio. Seu rosto belo carregava uma expressão de tristeza. Ela tinha a pele clara como a neve e cabelos ruivos vibrantes. Era linda. Tratava-me como filha — e, por vezes, eu a tratava como mãe. Sempre esteve ao meu lado, ao contrário de minha mãe, que era ao mesmo tempo distante e presente.

Levantei-me e a encarei, tomada pela preocupação.

— O que está acontecendo? — perguntei. — Por que essa expressão tão aflita?

Após minha pergunta, ela pareceu ainda mais abatida antes de responder:

— Seu pai voltou... e deseja falar com você. — engoliu em seco. — Receio que seja algo muito importante.

Enquanto seguia o guarda pelos corredores, a fúria crescia dentro de mim. Minha mãe havia ordenado que eu fosse trancada em um quarto quando eu poderia ajudar novamente. Sempre que um novo poder se manifestava, o mesmo ritual se repetia: isolamento, novas medidas, estudos, tentativas de controle. Faziam-me reduzir minhas habilidades, conter aquilo que eu era — e eu permitia. Não por concordar, mas por não saber como reagir. Eu também não compreendia totalmente meus dons; restava-me apenas esperar.

O que nunca fez sentido, porém, era o fato de que eu já possuía os poderes dos Grão-Senhores. Havia anos que nada de diferente surgia... até agora. Esse novo dom não pertencia a nenhuma corte. Nunca ouvira falar de alguém capaz de prever o futuro.

Caminhei pelos corredores admirando os quadros antigos, tentando me distrair. Em certo momento, observei o guarda à minha frente. Ele era espetacular. Seu andar era firme, quase predatório, como se tivesse o mundo sob controle. Algo nele impunha respeito.

Chegamos ao meu quarto. À frente, ficava o aposento de Tamlin. O guarda abriu a porta e, quando me virei para entrar, percebi que ele me observava atentamente. Permaneci parada, encarando-o. Havia em seu olhar uma curiosidade quase inquieta, como se tentasse me decifrar.

Sustentei o olhar por mais alguns segundos antes de perguntar:

— Por que me olha como se estivesse tentando me entender?

Talvez eu devesse ter sido mais discreta, mas a curiosidade falava mais alto.

Ele pareceu surpreso, mas respondeu com sinceridade:

— Desculpe. Estou tentando entender por que sua família a esconde. Você parece... extraordinária. Por que esconderiam alguém assim?

Diante daquele homem, senti uma pontada de culpa. Quis contar a verdade — dizer que eu era a verdadeira aberração daquele mundo, que por trás da aparência admirável havia poderes capazes de causar medo. Que eu possuía dons idênticos aos deles, talvez até superiores. Que eu poderia controlar todas as cortes. Que eu era mais forte.

Mas, em vez disso, recorri à velha mentira.

— Eles só querem me proteger dos machos do mundo feérico — respondi, abrindo meu sorriso mais convincente.

O rosto dele se contorceu levemente, como se percebesse a fragilidade da história. Sem insistir, indicou que eu entrasse no quarto. Obedeci.

Já sozinha, questionei-me por que ele não acreditara. Por que parecia tão diferente dos outros? O que havia de especial nele?

Deitei-me na cama, ciente de que não sairia dali tão cedo. Meu quarto era imenso: banheiro de mármore, um closet repleto de vestidos magníficos, paredes brancas e uma grande estante de livros ocupando uma lateral inteira. Havia uma sacada próxima à mesa onde eu costumava estudar. A cama ficava ao lado da porta, coberta por lençóis creme. Do lado de fora, o céu permanecia tão magnífico quanto sempre fora.

Fechei os olhos, revivi mentalmente tudo o que havia acontecido naquele dia... e adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com o som suave de água sendo preparada. Mary, minha criada, arrumava a banheira. Observei-a em silêncio. Seu rosto belo carregava uma expressão de tristeza. Ela tinha a pele clara como a neve e cabelos ruivos vibrantes. Era linda. Tratava-me como filha — e, por vezes, eu a tratava como mãe. Sempre esteve ao meu lado, ao contrário de minha mãe, que era ao mesmo tempo distante e presente.

Levantei-me e a encarei, tomada pela preocupação.

— O que está acontecendo? — perguntei. — Por que essa expressão tão aflita?

Após minha pergunta, ela pareceu ainda mais abatida antes de responder:

— Seu pai voltou... e deseja falar com você. — engoliu em seco. — Receio que seja algo muito importante.

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