Capítulo 3

1.3K 107 4
                                        

Diante daquilo, o medo me atingiu em cheio. Nada fazia meu pai abandonar a guerra — nada. O que, então, o trazia de volta? Voltei a encarar Mary, mas não fiz perguntas. Escolhi o silêncio, permitindo-me, por um instante, acreditar que talvez ele estivesse ali por ter descoberto meu novo poder. Talvez... orgulhoso.

Tomei o banho com uma lentidão quase desesperada, a ponto de Mary bater duas vezes à porta do banheiro. Respondi que já sairia, embora me faltasse coragem. Enquanto a água escorria, deslizei até a mente de Tamlin para procurar o rosto de meu pai. Todos estavam reunidos à mesa do café da manhã. O ar era pesado; respiravam fundo, como se cada suspiro fosse um esforço. Meu pai permanecia impassível — com aquele olhar capaz de ferir mais do que qualquer lâmina. O que teria acontecido para ele estar ali?

Não queria sair do banho. Não queria enfrentar um mundo que parecia ruir silenciosamente ao meu redor. Por um instante, desejei fugir. Ainda assim, saí.

Mary me aguardava com um vestido verde disposto sobre a cama. O cetim refletia a luz do sol que entrava pelas janelas; era leve, de alças delicadas, alegre — uma alegria que não existia naquela mesa. Ela arrumou meus cabelos em cachos suaves e, em seguida, colocou a coroa sobre minha cabeça. Meu rosto não exigia adornos; apenas uma fina camada de rímel foi suficiente.

Ao sair do quarto, o mesmo soldado do dia anterior aguardava para me acompanhar. Meus pensamentos giravam em torno da coroa. Por que haviam colocado aquilo em mim? Eu nunca a usava. Meu pai dizia que era reservada apenas para ocasiões importantes. Então compreendi: aquilo não seria agradável. Meu pai não viera por mim — viera para tomar uma decisão.

Caminhamos pelos corredores enquanto eu tentava entender o que me aguardava. Ao passar pelo jardim, vi os estragos da noite anterior. Algumas empregadas tentavam, em vão, restaurar a ordem. Subimos as escadas adornadas com ouro nos corrimões até alcançarmos as gigantescas portas do salão.

Antes de entrar, olhei para o guarda. O medo era visível em seus olhos. Talvez fosse pena.

Ele abriu as portas e murmurou, tentando me confortar:

— Vai ficar tudo bem, princesa.

Sorri, embora soubesse que não ficaria.

Meu pai estava à ponta da mesa. O homem que raramente me oferecera um sorriso parecia exausto, como se a guerra tivesse drenado toda a esperança de seu olhar. Fez um breve aceno com o rosto. Ao seu lado, minha mãe mantinha a postura imponente de sempre, vestida de azul-celeste — mas sua expressão denunciava derrota, como se tivesse discutido por horas com ele.

Tamlin estava próximo de nosso pai. A dor em seu semblante era clara. Meus outros dois irmãos permaneciam na guerra.

Sentei-me ao lado de Tamlin e inspirei fundo, fingindo firmeza enquanto tremia por dentro.

— O que está acontecendo? — perguntei. — Por que todos parecem tão tristes? Por que meu pai está de volta?

Minha voz quase se rompeu, mas me recompus.

Procurei qualquer sinal em Tamlin — não encontrei nada. Minha mãe olhava para meu pai. Ele, por sua vez, encarava-me diretamente.

— Serei breve, filha — disse, com uma calma que me gelou. — Você irá morar no mesmo lugar onde vivem os humanos. Não podemos correr o risco de que descubram sua existência. O que aconteceu ontem quase foi o fim.

Fez uma breve pausa antes de concluir:

— Explicaremos como tudo funcionará. Precisamos que você esteja preparada.

Sua expressão não vacilou.

E naquele instante, compreendi: aquilo não era uma decisão discutível.

Sua parceira Onde histórias criam vida. Descubra agora