Durante anos vivi escondida, levada de um lugar a outro na esperança de que nenhum feérico jamais me encontrasse.
Minha família sempre temeu que eu fosse capturada e torturada, forçada a revelar a origem dos meus poderes infinitos. Muitas vezes ouvi guardas — obrigados a manter meu segredo — sussurrarem insultos às minhas costas, chamando-me de "aberração do caldeirão", como se algo tivesse dado errado no momento do meu nascimento.
Meu nome é Cecília. Sou a irmã mais nova de Tamlin — aquela que foi mantida nas sombras por anos, a garota cuja existência quase ninguém conheceu. Apenas aqueles mais próximos da minha família sabiam quem eu era.
Nasci no segundo ano da guerra. Desde então, minha mãe jamais se afastou de mim, protegendo-me de qualquer ameaça. Por muito tempo, ninguém percebeu o quanto eu era diferente. Isso só mudou quando completei cinco anos e conjurei poderes que fugiam completamente ao padrão dos meus irmãos. Enquanto os deles eram estáveis, os meus cresciam com o tempo. Eu possuía habilidades pertencentes a todas as cortes: conseguia invocar forças já conhecidas, mas também manifestações jamais vistas antes.
Certo dia, anos depois a minha conjuração atipica de poderes, estavavamos eu e Tamlin no jardim favorito de nossa mãe. Meu pai lutava na guerra ao lado de meus dois irmãos mais velhos. Tamlin vestia uma blusa e uma calça de mangas longas em um tom de verde-mar, adornadas com delicados detalhes dourados nas mangas e na barra, formando pequenas flores. Eu, com a pele bronzeada pelo sol e os cabelos loiros caindo livres usava um vestido longo do mesmo tom da roupa de Tamlin, igualmente ornamentado com detalhes dourados.
Conversávamos sobre o que os soldados estariam pensando no campo de batalha. Enquanto eu organizava minhas suposições, Tamlin sorria, como se conseguisse visualizar cada cenário com clareza.
Sorri para ele e disse que um dos soldados certamente pensava em sua bela esposa. Tamlin riu e afirmou que eu era ingênua por acreditar que alguém pensaria em amor em meio à guerra. Frustrada com o que considerei ideias tolas, decidi retornar ao castelo. Naquela época, eu tinha dezenove anos e Tamlin, vinte e três. Ele era belo como o sol e tão protetor quanto os guardas de nosso pai — algo que, confesso, sempre me incomodou.
Tamlin temia que nossos segredos fossem descobertos e que eu fosse levada. Eu, por outro lado, já não suportava mais a prisão silenciosa daquele castelo. Enquanto subia as escadarias, uma visão me atingiu com força: uma onda de guardas, cujas intenções eu não conseguia decifrar, tentaria invadir o castelo para nos enfraquecer.
Corri escadas abaixo, gritando pelo nome de Tamlin. Em instantes, ele surgiu acompanhado de cinco guardas. Logo acima de nós, minha mãe apareceu, pálida como a neve. Disse a Tamlin que, em cinco minutos, eles invadiriam e destruiriam tudo. Ele não ousou duvidar — meus poderes sempre se mostraram diferentes.
Tamlin correu para a ala onde estávamos minutos antes. Na minha visão, aquele local estava reduzido a ruínas em chamas, com guardas feridos e outros mortos. Mas, ao olhar novamente para o jardim, vi as flores intactas, vibrantes e tranquilas.
Foi então que compreendi: além de tudo, eu também era capaz de prever o futuro.
Minha mãe continuava pálida, não por medo, mas pela confirmação silenciosa de que aquilo que eu havia descoberto realmente aconteceria. Ainda assim, estávamos preparados.
Os guardas nos esconderam dentro de uma das paredes do castelo — nelas existiam quartos secretos, construídos para tempos de crise. Naquele dia, eles estavam particularmente abatidos: haviam recebido a notícia de que trezentos guardas tinham morrido. Quando olhei novamente para um deles, ele forçou um sorriso breve antes de selar a porta atrás de nós.
Minha mãe estava deslumbrante. Usava um vestido creme que tocava o chão, com a parte superior rendada e adornada por flores que se estendiam do pescoço até as mãos. Ela sempre fora bela — cabelos castanho-claros, olhos azuis profundos e um sorriso magnífico. Muitas vezes pensei que meu pai fosse um homem de extrema sorte.
Ela me observava em silêncio, como se ainda estivesse presa àquilo que eu havia previsto. Minutos se passaram até que eu quebrasse o silêncio:
— Diga alguma coisa... por que está tão séria, mãe? Há algum problema?
Ela respirou fundo. Quando voltou a me encarar, sua expressão estava mais serena, embora carregada de inquietação.
— Como você pôde prever aquilo? — perguntou. — Como conseguiu ver?
Refleti por alguns instantes, mas nenhuma resposta concreta surgiu. Era como se tudo tivesse simplesmente se formado em minha mente. Olhei novamente para ela.
— Eu realmente não sei responder — disse. — Foi como imaginar... O lugar estava em chamas, guardas corriam por todos os lados e Tamlin...
Tomei fôlego antes de continuar.
— Ele estava morto, mãe. Deitado no chão, sem vida, os olhos voltados para o céu, como se o Caldeirão o tivesse reclamado.
Engoli em seco.
— Nunca imaginaria meu irmão daquela forma. Foi então que a visão se rompeu, e eu voltei. Percebi que aquilo não era imaginação... era um acontecimento.
Minha voz saiu em um sussurro aflito.
Minha mãe permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de falar, com uma tristeza contida no olhar:
— Sempre que isso acontecer, guarde para si. Nem tudo precisa ser revelado. Há momentos em que as coisas precisam seguir seu curso. Interferir, às vezes, só traz mais problemas.
Compreendi suas palavras e prometi considerá-las. Ainda assim, uma certeza ardia dentro de mim: jamais permitiria que minha família fosse tirada de mim.
Passamos horas escondidas. Enquanto minha mãe refletia sobre nossa conversa, eu deslizava pelas mentes ao redor, tentando entender o que estava acontecendo. Eu também possuía esse dom — Tamlin havia me contado que vinha da Corte Noturna. Entrar nas mentes era algo natural para mim. Eu me perguntava se conseguiria alcançar a mente do rei com a mesma facilidade que alcançava a de Tamlin. Mesmo com seus escudos erguidos, eu conseguia atravessá-los; ele treinava todos os dias, e ainda assim eu permanecia lá. Nunca avançava além do permitido — via apenas o que sentia que podia ver. Jamais invadi a vida pessoal de ninguém.
Horas depois, enquanto procurava rostos entre as mentes, senti algo diferente. Vi um guarda se aproximando para abrir a porta — não por meio da mente dele, mas pelo mesmo dom que se manifestara mais cedo. A visão se concretizava diante de mim.
Reconheci-o entre os outros: ele recolhia os destroços espalhados quando ouvi a voz de Tamlin ordenando que nos retirassem dali.
Levantei-me e posicionei-me diante da porta. Olhei para minha mãe, que parecia confusa. Contei mentalmente até três.
A porta se abriu.
Ela esboçou um leve sorriso.
À minha frente estava o guarda — olhos castanhos intensos, cabelos da mesma cor e a pele parcialmente coberta pelo uniforme do castelo. Seus ombros largos, sua altura imponente e o sorriso sereno fizeram minhas pernas vacilarem. Minha mãe apoiou-se em mim discretamente.
Ele desviou o olhar e falou com respeito:
— Tamlin pediu que eu viesse libertá-las.
Minha mãe assentiu e perguntou:
— Você é novo no castelo?
— Sim, majestade. Chegamos há dois dias. Somos a nova frota designada para proteger o castelo.
Ela então ordenou, com firmeza:
— Soldado, acompanhe minha filha até seus aposentos e permaneça à porta. Não permita que ela saia.
Encarei minha mãe, confusa. Por quê? Por que me trancar depois de tudo? Eu havia salvado a todos. Por que seu olhar agora era tão frio?
Quis deslizar por sua mente, buscar respostas... mas não pude.
O guarda apenas assentiu com a cabeça, e eu o segui em silêncio.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sua parceira
FanfictionCecília uma garota que foi mantida em segredo durante décadas, Cecília era a irmã mas nova de Tamlin nascida no ano da guerra diante da situação seus pais decidiram que não contariam a ninguém sobre ela, e durante os anos descobriram o quão especial...
