Droga.
Meu carregador sumiu, a bateria do celular está sumindo e eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Saindo do país sem um carregador, ótimo. Eu devia ter lembrado da Izabela me dizendo pra ser mais responsável com as minhas coisas.
Desliguei o celular e torci para que quando eu chegasse no meu destino eu pudesse ligar para Henry com apenas 8% de bateria.
Eu não podia deixar minha idiotice me abalar e simplesmente me animei com a ideia de que daqui alguns minutos eu estaria voando, passei pela fila e entrei no avião. Como havia dito antes carregava apenas minha mochila com algumas roupas, meu notebook e uma barra de chocolate.
Meu assento era na lateral e só havia outro assento do meu lado, ou seja, janelinha. Ainda bem. Odeio assentos quádruplos.
– Com licença - eu disse para a moça sentada no assento vizinho para que eu chegasse na janelinha. Espera um momento, acho que eu já vi essa garota em algum lugar.
– Claro - ela respondeu sem nem olhar para mim. Lia um livro que eu não conseguia identificar, usava um óculos escuro, tinha cabelo bem escuro, porém curto. Vestia uma jaqueta negra de couro e também uma blusa branca com alguma coisa em... japonês talvez? Mantinha uma pose muito reta, era muito bonita.
Sentei no meu lugar e finalmente identifiquei o que ela estava lendo.
– Ah, você gosta de Harry Potter? São os livros da minha infância - céus, que vergonha.
– Só comecei a ler agora - ela deixou escapulir um riso - talvez eu não tenha mais idade para ler esse tipo de coisa.
– Não foi isso que eu quis dizer e -
– Eu sei - ela riu gentilmente.
Olhei para ela por mais alguns instantes até minha observação ser interrompida.
– Tem alguma coisa na minha cara ou coisa do tipo? - ela disse em tom de brincadeira.
– Não, é que eu acho, que te vi em algum lugar... éhh.
Ela tirou os óculos escuros, revelando belos olhos verde esmeralda, a encarei por alguns milésimos de segundo.
– Não? - ela indagou
– Eu te vi em algum lugar, tenho certeza disso, foi naquela revista, não foi?
– É possível - ela sorriu de canto - sou modelo, Louise March - e só então notei que ela carregava um certo sotaque.
– Meu Deus, Louise da vogue? Da vofue italiana desse mês? Minha amiga te ama, ela não vai acreditar. Meu nome é Anna.
– Anna, não conte para ela que eu só comecei a ler Harry Potter agora, ok?
O vôo partiu e passamos mais alguns momentos em silêncio, eu estava muito tensa por algum motivo. Abri a barra de chocolate e comi alguns pedacinhos.
De repente, Louise se vira para mim.
– Quer assistir esse filme comigo? - ela pergunta
O QUÊ? Não teve como disfarçar minha reação ao pedido inusitado dela.
– Ééé...
– É que eu sempre choro com esse filme e eu não gosto de assistir sozinha... por favor.
– Ah, claro. - Não é como se eu tivesse algo melhor para fazer naquele avião.
Ela me passou o fone esquerdo dela e eu coloquei, ela deu play no filme.
– É tão bonito e tão... triste - Ela ia comentando o filme sem nem prestar muita atenção na tela - Por quê você está indo para Paris, Anna? Desculpe a indiscrição.
– Eu tenho um namorado lá e eu quero viver lá e ser famosa e ter um emprego e... é simplesmente onde eu quero estar.
– Não vá para Paris por causa do seu namorado, não é uma boa ideia, pra mim não foi.
– Você foi para Paris por causa do seu namorado? - eu perguntei.
– Não, eu sou de Paris. Eu fui à New York por causa do meu namorado. Do meu ex-namorado. Nós tínhamos uma banda e queríamos ser famosos, eu fui até Nova York, no fim das contas ele foi embora.
– Ah - entramos em um silêncio um pouco contrangedor.
– Está vendo? - ela apontou para a tela - é isso que acontecendo com garotas que nem eu.
Conversamos mais um pouco, e quando se trata de Louise, ela toma conta da conversa e começa a contar a vida inteira dela. Até que ela dormiu, e dormiu encostada no meu ombro, observei ela um pouco no meu ombro e me perguntei de onde saiu toda essa intimidade que ela teve comigo. Talvez ela só precisava desabafar um pouco, as coisas não parecem muito positivas para ela. Ela havia me contado que ia para Paris por novas ofertas de emprego e que queria recomeçar sua carreira - e que sua foto na vogue na verdade era de uma revista do ano passado e que eu era, na realidade, muito desatualizada.
Olhei para ela dormindo mais um pouco, sorri e caí no sono.
***
Eu acho que devo ter desmaiado ou coisa do tipo, essa foi uma experiência meio bizarra. E o pior é que já tinha uma fila de pessoas tirando malas e indo em direção a porta do avião - Já cheguei? E Louise havia desaparecido.
Notei que havia uma folha na minha mesa. Era um página de revista rasgada, era Louise sentada em uma cadeira com um vestido verde, olhando para o além ou coisa do tipo. Ela havia escrito um número de celular na página e assinado seu nome.
Dobrei a pagina e coloquei na mochila, me levantei e entrei na fila pra sair do avião.
Que noite engraçada.
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Mentiras, desculpas e outras invenções
Teen FictionOs conceitos de Anna Hermann, que costumava ser o centro das atenções, mudam ao sair do país e encarar a nova realidade de sua vida na capital do amor. O que é amor? E o que é paixão? E ilusão? Família? Na França, Anna mergulha cada vez mais em um m...