Entrei na sala do rei fingindo procurar o portal. Tentei parecer concentrada, vasculhando os livros, até ouvir um barulho atrás das prateleiras. Alguém havia caído.
— Alissa?! — cochichei, irritada. — Qual parte de “não deixe que te vejam” você não entendeu?
— Desculpa, Diabolic... mas eu sei onde está o artefato — ela respondeu, também em sussurros.
— Onde?
Antes que ela pudesse dizer, Hades entrou pela porta.
— Olá, querida — ele disse, caminhando com as mãos nas costas.
Alissa se escondeu às pressas entre as estantes.
— Está difícil encontrar o portal — falei, tentando manter a voz firme.
— Imagino. Se nem minha filha achou... — Macária apareceu na porta, parecendo calma. Amanda já havia me contado que ela estava do nosso lado.
Hades caminhou pela sala, examinando prateleiras e olhando sob a mesa. Pisquei discretamente para Macária. Ela retribuiu com um leve sorriso.
— Queria te pedir um favor, Bolic — disse Hades, me surpreendendo. Ele nunca usava apelido.
— Sim?
— Procure o meu artefato. Assim que o encontrar, traga até mim. Por gentileza.
— Claro. Mas como ele é?
— Você vai saber quando ver. E quando encontrar, eu saberei também.
— É tipo... conectado a você?
— Algo assim — disse, e saiu da sala com Macária ao seu lado, como uma serva fiel.
— Psii, psii — cochichou Alissa, ainda escondida.
— Eu sei que sou uma gata, não precisa chamar — ela riu — Onde está o artefato?
— No livro... é... Le son femi... não, calma... le senge duni feme... — ela tentava lembrar.
— Le Songe d’une femme — falei, localizando o livro no alto da estante. — Eu pego, Alissa. Obrigada.
— Olha ela... falou “obrigada” — disse Alissa, desaparecendo pelo duto de ar.
— Cala a boca!
Ouvi a risada dela ecoando nas paredes.
— Amanda! — Diabolic apareceu correndo. — Tá começando!
Olhei para James. Ele já empunhava uma espada. Um frio percorreu minha espinha. Eu ia vomitar.
Eu e Diabolic saltamos no meio do salão. Minhas unhas cresceram e meus olhos ficaram dourados.
— O que está acontecendo?! — gritou Malévola.
Todos nos reunimos. A tensão crescia.
— Eles estão se rebelando contra nós! — rugiu Hades.
— Como vocês ousam?! — gritou a Rainha Má.
— Minha filha nunca... — começou Hades.
Mas Macária correu para o nosso lado.
— VOCÊS NÃO TÊM DIREITO! — gritou a Rainha de Copas.
Alissa caiu bem no meio da roda.
— Opa! — disse, correndo para perto da gente.
Era agora.
Filhos contra pais. Jovens quase sem treino contra os maiores vilões de todos os tempos.
Hades ergueu uma enorme esfera de fogo e lançou contra nós.
Antes de nos atingir, Macária puxou a chave e abriu uma porta no meio do nada.
— MINHA PRÓPRIA FILHA?! — Hades gritou.
A porta o sugou direto para o submundo. Ele sumiu.
— Jura que foi fácil assim?! — reclamou Malévola, irritada.
— Aqui, cobra come cobra — disse Alissa. Rimos por um instante, mas o alívio não durou.
Malévola começou a crescer. Seus olhos esmeralda cintilavam. Transformou-se num dragão médio.
Jafar sacou o cajado mágico e protegeu a Rainha de Copas.
A Rainha Má puxou uma pequena varinha da coxa e sua aparência se distorceu — de bela, virou uma velha horrenda.
Úrsula surgiu com seus tentáculos. Capitão Gancho com sua espada reluzente. Cruéla sacou uma pistola. Provavelmente, balas de prata.
— Cuidado, Amanda — disse Malvino, surgindo atrás de mim.
Cruéla atirou. Desviei e corri na direção dela. Começamos a lutar.
O salão virou um caos.
GUERRA TOTAL
Eu e Alissa lutávamos lado a lado. Ela desviava dos tentáculos da minha mãe com uma leveza impressionante. Eu enfrentava meu pai — uma dor difícil de explicar.
Meu tio Smee entrou correndo, e logo James o enfrentou. Maya e Caio libertavam os presos aos poucos.
Estávamos virando o jogo.
Malévola voltava à forma humana, fraca. Úrsula já estava contida por correntes encantadas. O rei surgia no alto da escadaria.
Tínhamos vencido.
Ver nossos pais sendo presos foi um tipo estranho de dor. Confuso, agridoce. Traumatizante.
Minha mãe, Malévola, foi amarrada com correntes anti-magia. Estava sendo levada...
Mas de repente, se soltou. Tão rápido que poucos notaram.
Alissa andava perto. Gritei:
— ALISSA!
Minha mãe, furiosa, sacou uma adaga mágica.
Sem pensar, corri. Me joguei entre as duas.
A lâmina atravessou minha barriga.
— Diabolic! — gritou Alissa, me segurando.
Senti meu corpo pesar. O sangue escorria. As lágrimas vieram.
Malévola caiu de joelhos, em choque.
— O que você fez...? — murmurou. Chorou. Jogou a adaga longe.
Ninguém se aproximava.
Alissa tentou conter o sangue, rasgando a própria blusa e pressionando contra o ferimento.
— Não tem jeito... — sussurrei. — A adaga é mágica... não tem cura...
Alissa chorava.
— FOI VOCÊ! É SUA CULPA! — gritou Malévola, com os olhos em chamas.
— Não, mãe — falei, com esforço. — A culpa é sua... você... matou sua filha...
Lágrimas escorreram pelo rosto dela.
E então... ela sumiu. Virou fumaça negra e desapareceu.
Alissa me abraçou, chorando.
Logan chegou correndo, ajoelhou-se ao nosso lado. Também chorava.
— Me desculpa... — sussurrei.
— Obrigada... — Alissa disse, entre lágrimas.
James segurava Amanda, que soluçava de dor no coração.
E então...
O castelo ficou em silêncio.
Por alguns segundos, só se ouviu o som dos choros.
“Não se desculpe, Diabolic. Obrigada.”
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Os Filhos dos contos de fadas
AdventureA história contando sobre os filhos dos contos de fadas e como eles passam pela confusão chamada: adolescência Alissa filha de Alice no País das maravilhas e chapeleiro maluco Luke filho de rapunzel e o antigo fugitivo maya e Luiza filhas de Cind...
