Capítulo 16: Ressaca de feridas

100 10 0
                                        

O quarto dos meus pais estava intacto — eu tinha trancado antes da festa. Mas o resto da casa… O corredor estava cheio de garrafas no chão. Os quadros de família tinham caído.

Conforme fui andando, fui pendurando os quadros de volta na parede. Um deles estava quebrado, mas era fácil de arrumar. Usei cola quente. Passei pano no corredor enquanto a Katy arrumava a sala. Limpamos a cozinha, tiramos oito sacos de lixo da casa.

Não sei por quê, mas tinha um pedaço solitário de pizza embaixo do sofá. Nem encontramos a caixa. Eu nem pedi pizza ontem… mas tudo bem.

Voltei pro meu quarto pra dar uma geral. Ficamos enrolando um tempo por lá, tentando tomar coragem pra encarar o quintal.

Até que fomos.

A varanda estava pior do que imaginávamos. Vai ser um dia cansativo...

— Bom dia, ganchozinho — disse Diabolic, deitada em cima de mim… nua.

— Não me chama assim — falei, empurrando ela de leve pro lado e começando a me trocar.

Eu só conseguia pensar na Alissa. Ontem era minha chance com ela… e eu pisei feio.

— Por que você tá bravinho? — perguntou Diabolic, se levantando sem cerimônia.

Virei o rosto.

— Ah, sério, Logan!? Como se você nunca tivesse visto antes.

Olhei. E é, agora eu entendi porque rolava tantas vezes entre a gente.

Ela começou a se vestir, e eu fui lembrando do que rolou.

— Você me manipulou!

— Eu tentei, mas na hora que você me beijou, sabia muito bem o que tava fazendo. Podia ter parado, mas não parou.

— Poxa, Diabo...

— Xiii… Lá vem. “Me manipulou, blá blá blá.” Eu sentia sua falta, seu idiota. Sinto muito, mas se você perdeu sua chance com a Alissa, não joga a culpa em mim.

Os olhos dela ficaram verdes por um segundo. Voltaram ao normal.

— Tô indo, gato.

Ela passou a mão no meu rosto, deu um beijo perto da boca e disse:

— Ela tem muita sorte, cabeça de peixe.

Me deu um peteléco na orelha e saiu.

— Aii! — pus a mão na orelha e me abaixei um pouco.

Eu gosto muito dela. Ela foi minha primeira namorada. Mas foi sacanagem o que eu fiz com a Ali.

TORRADA COM CLIMÃO

Desci as escadas meio brava, mas entendo. Ele tá afim da maluquinha.

É que ele foi meu primeiro namorado, me dá um leve ciúme.

Na cozinha estavam James, Malvino, Capitão Gancho e Úrsula, todos tomando café.

— Olá! — falei, e os quatro levaram um susto. — Bom dia.

Úrsula fez cara de sem graça, e o Capitão um sorriso amarelo. James e Malvino seguravam o riso.

Peguei uma torrada e saí.

ESCONDERIJO

Acordei no esconderijo meu e da Maya. Fiz algo pior do que só beijar. Levei a Nasira pro nosso lugar especial.

Ela estava em pé, me encarando.

— Você tem namorada? — perguntou brava.

— É... hm, eu… sim.

— E quando pretendia me contar? Depois do beijo? Depois de me... chupar? Depois da transa? Quando, Caio?

Começou a xingar em árabe. Eu senti um aperto no peito.

— Me perdoa. Eu não pensei direito...

— Não é pra mim que você tem que pedir perdão — ela disse, e eu me encolhi.

— Depois eu que sou a vilã… — ela saiu irritadíssima.

FODA-SE, ME APAIXONEI

— Aaaah...

Entrei no quarto de Logan.

— Que foi? — Ele perguntou.

— Cara, pela primeira vez na vida, eu não quero pegar e largar uma mina. A Amanda é incrível.

— Olha só... parece que o objetivo do rei deu certo: converter os vilões — falei, meio orgulhoso.

Aquela frase me deu um aperto no peito. Pela primeira vez, eu quis chorar de desespero.

Será que eu realmente quero dominar esse mundo?

— Gente — entrou Malvino no quarto. Me recompus pra nenhum dos dois perceberem. — Conhecem a filha da Branca de Neve? Acho que é… ela é muito parecida.

— Sofia? — perguntou Logan.

— Isso! — Malvino respondeu, quase desesperado.

— Conheço mais ou menos. Ela deu em cima de mim no primeiro dia. Por quê?

Malvino fez uma cara meio travada.

— Ah, nada… conheci ela ontem na festa… Tem o número dela?

— Ouvi dizer que ela tem uma tara por vilões. Não tenho o número, mas depois de amanhã é segunda. Pode falar com ela na escola... ou melhor: amanhã o pessoal vai pra praia perto da casa do Fernando. A Alissa tem o número dela, acho.

— Ok — ele respondeu e saiu.

— Como funciona a cidade, Logan? Como pode ter florestas e praia na mesma cidade? — perguntei.

— Você é burro, James? Essa cidade é mágica. Nem fica no mundo real. Os humanos só conseguem entrar por um portal que fica no castelo do rei.

— Hm, entendi...

Eu estava jogando conversa fora. Eu vim pra cá pra entender o lugar, quebrar o portal, dominar o mundo com os vilões… mas estava com saudade do meu irmão me zoar.

— Burro é você — falei, e rimos.

Será que eu ainda quero ser vilão?

Preciso conversar com o pessoal...

Os Filhos dos contos de fadasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora