Chapter Six: Depression

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Chegamos em casa. Eu estava destruída, como se as palavras de Richelle e das demais garotas tivessem me navalhado o corpo todo. Aquilo era um único dia de bullying, e pensar que Alfie passava por isso sempre me fez ter um novo olhar sobre seus problemas de socialização. Eu estava com muita raiva delas, e se Alfie estivesse, em relação a mim, com um décimo do ódio que eu estava daquelas garotas, eu estava correndo risco de vida.

(...)

Enquanto escovava os dentes, fitei meu semblante cansado no espelho. Eu parecia mais velha, com os olhos sem vida e os lábios curvos para baixo. Enxaguei o rosto, pisquei algumas vezes e voltei a me encarar, tentando me concentrar no que eu era, numa tentativa de extrair daqueles olhos mortos a alegria que um dia eles tiveram. Sorrir me deixou com expressão de louca. Não me reconhecer mais me fez chorar.

Cheguei à conclusão de que a perseguição social cria algo irreversível no seu psicológico, um enfraquecimento definitivo; sua autoconfiança fica minada e você cai vulnerável como um doente. Ninguém, nem com as melhores palavras, consegue mais te convencer de volta de sua superioridade, e aqui estamos falando de mim – imagine a situação de quem não carrega meus talentos e atributos. Seu sorriso nunca mais volta a ser sincero e toda tentativa de forçá-lo se revela uma imitação vazia e inútil de algo que pode se repetir esteticamente, mas mentalmente, jamais. Naquele tempo eu estava testemunhando, indefesa, cética e impotente, a demolição total dos meus privilégios.

(...)

Ao sair do banheiro, mudei de personagem e tentei exibir novamente a minha indumentária de imbatível, orgulhosa, imponente. Pelo menos de Alfie eu queria esconder meu abatimento, ainda que para fazer isso eu tivesse que desviar meus olhos dele o tempo todo.

Apanhei meu vestido – o mesmo com que mamãe tinha me presenteado no dia anterior – de cima da cama. Era com ele que eu estava na aula, e como eu tinha usado ele pelo dia todo, o natural era que eu quisesse colocá-lo no cesto de roupas sujas, mas logo estranhei que ele estava encharcado e cheirando muito forte. Ao aproximá-lo do meu rosto para identificar que odor familiar era aquele, vi uma enorme mancha de desbotamento em sua estampa; Alfie havia derramado nele um frasco inteiro de água sanitária. Olhei para trás e o vi na entrada do quarto, com aquela cadeira de rodas que me lembrava de sua deficiência e que atualmente era seu escudo para tudo. Perto de seus pés, estava o invólucro da garrafa, como uma sinistra propaganda da minha desgraça...

(...)

Fazer Alfie comer também estava dando trabalho, tanto porque ele não queria comer por birra como também porque ele dizia passar mal com tudo o que era oferecido.

- Você está irreconhecivelmente magro – disse-lhe, impaciente, certa vez – Assim, você vai cair doente.

- Eu não quero comer isso! Me faz enjoar só com o cheiro.

Ele tentava bloquear o avanço do prato mostrando as palmas da mão para mim, num gesto que significava querer afastamento. Mas eu estava disposta a fazê-lo comer de qualquer maneira, e não sairia dali enquanto não conseguisse.

- Alfie, por favor, não complica! Sua mãe vai reclamar depois que você está emagrecendo! É isso que quer: deixar sua mãe triste?

Quase parecendo o meu Alfie de antigamente, ele se rendeu e obedeceu meu comando. Comeu umas duas colheradas e depois voltou a insistir:

- Eu não quero mais.

- Não – eu o havia encurralado entre duas paredes, para não lhe deixar alternativas – Você só vai sair daqui depois que comer tudo!

Best Friends (FINALIZADA)Onde histórias criam vida. Descubra agora