Semanas se passaram, e uma excursão que há muito ansiávamos finalmente chegou. O itinerário era simples e consistia em passar por alguns monumentos, fazer uma trilha na mata, dar umas voltas de ônibus, tirar umas fotos e visitar um museu de história natural. Correção: para uma pessoa comum isso era um trajeto razoável, mas para Alfie era impossível. Fiquei esperançosa de que a compra do uniforme especial para este dia fosse fazer D. Melissa esmorecer em permitir que o filho dela fosse, já que o agasalho, a camisa e a calça custavam o olho da cara. Isso não foi problema: o namorado dela desembolsou o que faltava e Alfie foi deixado a caráter na minha porta.
Sorri forçada, mas qualquer um que olhasse mais atentamente para a minha cara perceberia o descontentamento. De alguma forma, minha convivência com as garotas voltou a ser a mesmíssima coisa de antes, e essa amizade com elas não dava brechas para a convivência com alguém como Alfie.
- Ah, ele vai, é? - Munich se manifestou primeiro, logo que o viu, revirando os olhos e dando as costas para a gente, fingindo que ia falar com Richelle e as outras.
Como eu conduzia a cadeira de rodas de Alfie, não consegui avaliar sua expressão, mas aquele silêncio dele mostrava que ele não estava nem um pouco feliz.
- Vai ser divertido – tentei animá-lo.
- Eu não acho – ele respondeu – Eu só vou estragar o passeio de todo mundo.
- Não é verdade, Alfie – e minha voz tinha a oscilação própria de quem pensava exatamente o oposto.
- Eu consigo ver na cara de cada um aqui que é exatamente isso que estão pensando. Sabe, Lilith? - esse apelido tocado assim de repente me deu um susto, ele nunca mais havia me chamado assim – Quando você está no lugar de alguém como eu, começa a perceber o quanto incomoda as pessoas me ter por perto. Elas todas ficam olhando para mim com essa cara de quem está pensando "eu achei que ele não vinha, o que eu faço agora?"
Sem saber o que responder, continuei conduzindo sua cadeira para perto dos outros. Esperamos alguns minutos pelo ônibus, e, quando ele veio, tivemos mais uma frustração: ele não era adaptado. Agora fazia sentido aquela cara que todo mundo fez quando viu o Alfie. Um dos monitores, solícito, deu a ideia de tentarem, em três ou quatro pessoas, carregar Alfie para dentro, mas a porta era estreita e a escada muito íngreme. Os vidros da cabine do motorista atrapalhavam a operação, e logo desistiram da ideia. Jasmine, uma das meninas, foi quem deu a seguinte ideia:
- Podem levar primeiro a cadeira e depois ele, não é?
Os garotos, que já estavam esperançosos de não ter que ajudar, bufaram, e eu não pude deixar de notar que Alfie percebeu isso. Mas, pressionados por um professor que tomou a frente pedindo ajuda, eles não tiveram como recuar. Assim, Alfie foi tirado de sua cadeira de rodas, sentado em uma cadeira comum enquanto sua cadeira era encolhida para passar pelo estreito corredor do ônibus escolar. A equipe multidisciplinar não sabia onde enfiar a cara de tanto vexame por aquela situação. Os alunos das cadeiras de trás tiveram que se sentar logo, porque, depois que Alfie se sentasse em sua cadeira, ninguém mais ia conseguir passar para a frente.
- Deu para abrir a cadeira dele? - uma das coordenadoras à frente da atividade perguntou para os alunos que carregaram a cadeira de Alfie.
- Deu! - eles responderam.
Nessa hora, todos respiraram aliviados. Em seguida, Alfie foi carregado por dois marmanjos que já tinham dito horrores a meu respeito, e eu ainda tive que dizer um meigo "obrigada" quando eles acabaram. Que ódio dessa situação toda! Mas o suplício e o constrangimento de Alfie não acabaram aí. Uns dois adultos diferentes começaram a meter aquele blá-blá-blá de respeitar as diferenças e as "incapacidades" - sim, eu juro, usaram mesmo essa palavra – das pessoas que carregavam alguma limitação física. Como só tinha Alfie de deficiente ali, tava na cara que estavam falando dele.
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Best Friends (FINALIZADA)
Roman d'amourBest Friends conta a história de três amigos: Annette, Drielly e Alfred. Contada em flashbacks, remonta a três períodos: o presente, onde Alfred já é morto. A infância distante, onde os três se conheceram. O passado recente, onde Alfred, adolescente...
