O vento era cortante, o frio congelava qualquer pessoa que fosse menos acostumada à vida através das montanhas do castelo de Midgard, a reclusão era algo que fazia parte da dura alma de Ragnar, o que o mantinha vivo era a imortalidade petrificada que seus pais tinham o entregado ao nascer, e ao pensar em nascer, desejava nunca ter o feito. A última palavra tinha sido feita por Coré, todos estariam em partida na próxima lua, em direção a uma terra desconhecida, a noticia foi recebida com comemoração pelos irmãos mais novos, mas caiu como um fardo pesado sobre as costas de Ragnar. O homem não foi enganado por toda a vida, pois teve o prazer de nascer mais cedo que seus irmãos e conhecer a realidade através dos olhos de uma inocente criança.
- Irmão. - A presença de Dag era anunciada com suas passadas largas e pesada, o homem tinha a aparência de um tigre gigantesco, tinha marcas de batalhas em seu peito, o que parecia muito com as listras do animal, ele era alto, mas não tão alto como Ragnar, tinha os cabelos longos, castanhos, presos em um rabo de cavalo, era nítido o calor no homem, ele deveria claramente estar alterado devido todo o hidromel que tinha consumido em apenas algumas horas de comemoração. - Anime-se Ragnar, vamos desbravar mais uma parte do mundo. - O homem se aproximava do irmão mais velho e o tocava em seu ombro. - Quando voltar ainda vai ter Astrid de pernas abertas pra você. - Dag sabia como tirar Ragnar do sério, e o fazia sem pensar duas vezes.
- Não sou mais casado com Astrid. - Ragnar afirmava - Não tem motivos para ela estar de pernas abertas.
As gargalhadas ecoavam pelo quarto vazio que Ragnar antes se mantinha recluso.
- Odin sabe que aquela mulher não precisa de motivos para abrir as pernas pra você. - Dag falava logo sendo interrompido por mais um intruso no quarto.
- Irmãozinhos. - Thorrum falava com um sorriso no rosto. - Mamãe insiste em falar com todos. - A menina de cabelos longos e escuros quanto à noite apontava em direção aos mais velhos dos irmãos. - Na frente dos súditos. - Ela engoliu em seco antes de terminar a frase. - Sem exceções de nenhum filho.
- Mãe. - Ragnar ironizava a palavra usada pela irmã mais nova.
- Sim, mãe. - Ela se virava dando as costas aos brutamontes.
Os dois seguiam o mesmo caminho que a imagem pequena de sua tão protegida irmã. O fato de Coré não ser a mãe de sangue de todos os meninos não era algo escondido, mas era algo pouco comentado. Ao chegar ao gigantesco salão que estava rodeado das mais diferentes pessoas, desde guerreiros á escudeiras de toda a parte do norte, era nítida a ansiedade e a felicidade no rosto de todos, viajariam ao sul do mundo pela primeira vez, talvez fossem finalmente as terras prometidas dos Deuses.
- Ragnar que bom que veio. - A mulher de longos cabelos vermelhos se aproximava do mais velho, Ragnar tinha aparência marcada pelos ventos frios que enfrentava em todas as suas viagens, uma cicatriz cortava sua sobrancelha, ele era o único dos irmãos que mantinha os cabelos soltos e alvoroçados, fazendo um contraste com sua longa barba, que não era nem um pouco definida, pelo contrario, parecia uma grande bagunça de cabelos e mais cabelos.
- Thorrum...- Ele olhava para a menina com os olhos semi abertos, o discurso de que Coré queria todos os filhos presentes era uma mentira para tirar a criatura de seu isolamento.
- Já que todos os meus filhos estão presentes, gostaria de fazer um ultimo comunicado nesta noite. - A mulher levantava o copo de hidromel a sua frente, fazendo sinal a um brinde. - Teremos um casamento entre o reino que vivemos Midgard. - Ela falava mais alto do que sua voz a permitia. - E as terras prometidas de Arbolon.
O rosto de Ragnar se movia conforme eram ditas as palavras, se comparava agora com uma cobra prestes a dar o bote, em sua boca conseguia sentir apenas o gosto do sangue, e suas mãos serravam em forma de um soco, o homem não colocava muita confiança na mulher que o criará, algo existia em seu semblante de mãe orgulhosa. Ragnar poderia ter mais de um século de vida, mas o que era feito pelos Deuses era algo bem feito. As brechas que deixaram em sua memória era algo que ele não sabia explicar o porquê existiam.
- E quem vai ser o primeiro sortudo a se casar? - Rorrok brincava com o copo em sua mão. - Não que eu esteja interessado. - O menino fez movimentos com as mãos como se estivesse insinuando algo.
Rorrok era o mais novo, o menino tinha os traços diferentes de seus irmãos, ele tinha os cabelos claros, assim como as penugens que cresciam em seu rosto, seus olhos eram de um azul quase cinza, diferente do de seus irmãos que seguiam um tom mais escuro.
- Isso quem sabe são os Deuses. - Coré se virava em direção a Ragnar, erguendo o copo, o homem retribuiu com o movimento de sua cabeça.
O tempo correu, quando se viu o dia de partir tinha amanhecido, Ragnar nunca teve a necessidade de se despedir, mas algo em seu coração marcava o fim de uma tempestade, e uma tempestade que levaria algumas almas consigo, o homem procurou por um mês desculpas para poder ficar em seu reino, mas no fundo de sua alma existia a vontade de partir. As pessoas colocavam as ultimas coisas dentro das centenas de barcos ao porto de Midgard, o mar não estava congelado, em qualquer ano, naquela época estariam saindo do norte e indo mais ao norte. O povo conhecia todos os cantos do norte, todas suas tribos e suas ameaças, mas não conhecia uma ponta sequer do sul.
- Ragnar... - a voz feminina muito conhecida por ele fez-se presente. - Por favor... - A mulher implorava, buscava por uma resposta.
- Eu voltarei Astrid. - Ele tocava as mãos da mulher que uma vez foi sua esposa, e que agora guardava em si apenas o resentimento de não a ter feito feliz. - Enquanto isso cuide de seus filhos, cuide de seu marido. - Ela tinha se casado novamente, não muito tempo depois de ter sido largada pelo homem que amava.
- Eram pra ser nossos. - Ela falava em um soluço - Nossos filhos.
- Nunca serei capaz de te dar filhos Astrid. - A imagem forte do homem se desfez ao lembrar-se das tentativas de por no mundo um filho.
- Eu sei. - Ela concordava segurando as lagrimas dentro de si - Sinto que meu Ragnar não voltará vivo desta viagem.
- Só os Deuses sabem. - Ragnar falava.
- Que seu pai te guie ao caminho certo.
- Que os Deuses estejam com você Astrid.
A despedida não tinha efeito positivo sobre Ragnar, seu pressentimento estava certo sobre o fim da tempestade, mas nada o garantia de iria sobreviver ao que estava por vir.
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Maldito Seja
FantasyExistem lendas que contam guerras que não presenciamos guerreiros que não sabemos se realmente existiram, tempestades devastadoras e seus sobreviventes, sabemos o que foi escrito pelos primeiros mestres e cantado nas fogueiras, sabemos do céu e sua...
