12 de junho de 2020.
Eu estava inquieta naquela noite. Havia dado um jeito de fixar o tabuleiro Ouija na parede com fita dupla-face, agora podia vê-lo em cima da minha escrivaninha. Eu achava que era um item decorativo legal, na maioria das vezes curtia essa decoração esotérica, mas agora parecia inquietante. Ficava lembrando dos sussurros, do toque e do tabuleiro Ouija. Sabia que não havia imaginado aquilo, havia alguém sussurrando e me tocando.
Era Laura? Essa era sua forma de vingança? Me assustar e ficar me assombrando? Bom, se fosse, estava funcionando. Eu havia deixado a porta do quarto aberta para a luz do corredor entrar, não conseguia dormir no escuro — as silhuetas da cortina e dos móveis me assustavam o tempo inteiro.
Fechei os olhos e respirei fundo. O quarto tinha um cheiro reconfortante de incenso e lençol limpo. Eu não tinha nada para me preocupar, repeti para mim mesma, não havia nenhum fantasma me assombrando. Além disso, se fosse Laura, eu sabia que ela nunca me machucaria.
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Acordei assustada com um pesadelo. Era um pesadelo em que eu caía na escuridão, milhares de mãos me tocavam, me puxavam para baixo, agarravam meus braços com um toque duro e frio. Eu gritava de agonia.
Quando acordei, minha blusa estava molhada e grudada na pele suada, eu havia me debatido tanto que a coberta havia caído no chão. Suspirei pesadamente, pegando o cobertor e me enrolando nele, ignorando a pele quente. Queria tomar um banho, trocar a roupa suada, mas não tinha coragem de sair da cama depois daquele pesadelo. E se tivesse alguém no banheiro? E se eu pisasse no chão e alguém puxasse meu tornozelo?
Decidi que, por questões de segurança pessoal, ficaria na cama e tentaria dormir, tomaria banho e trocaria os lençóis na manhã seguinte. Não estava a fim de pegar meu celular para me distrair, então só enrolei meus pés no cobertor e fiquei encarando o teto, esperando que o sono voltasse. É claro que não voltou.
Laura, os sussurros e o Ouija ficavam girando na minha mente. Para piorar, eu tinha certeza de que estava vendo coisas, porque uma ou duas vezes vi um vulto na escuridão, ouvi um sussurro distante. Era tudo muito estranho, nada sólido o suficiente para me fazer sair dali, mas o suficiente para me assustar.
Foi às cinco da manhã que eu senti. Estava de olhos fechados, escolhida e abraçada num travesseiro extra, quando algo se entrelaçou no meu tornozelo, por cima da coberta. Abri os olhos na hora, muda, em pânico. Só vi uma silhueta, era literalmente só isso. Uma sombra escura.
Pulei no colchão, encolhendo as pernas e contendo um grito. Se eu gritasse, minha mãe ouviria e viria correndo, ela acharia que eu estava louca porque não conseguiria ver o fantasma.
A sombra se moveu na escuridão, eu não conseguia discernir muito bem porque o quarto estava um breu completo, só sabia que a criatura se aproximava. Antes que ela pudesse me tocar novamente, algo aconteceu, uma luz brilhou no canto do quarto.
— Vá embora! — uma voz furiosa gritou, impaciente. Pisquei, mal conseguindo acreditar. Foi questão de segundos: A menina luminosa avançou, a sombra recuou até sumir em algum ponto escuro.
Não perdi tempo, saltei da cama e me joguei no interruptor. A luz invadiu meus olhos de maneira dolorosa, pisquei várias vezes até conseguir enxergá-la. Laura estava parada no meio do quarto, aos pés da minha cama.
— O que diabos você fez? — perguntou, irritada. Seus olhos estavam escuros e tempestuosos, os cabelos loiros chicoteavam ao seu redor de uma maneira que eu não sabia que era possível.
— Eu só queria falar com você. — Eu tentava acalmar meu peito, mas minha voz saía rouca e entrecortada porque estava sem fôlego. Laura revirou os olhos.
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Anjos Como Você
Ficção AdolescenteAlice pode ver fantasmas. Isso seria assustador, mas Laura, a garota fantasma que frequenta seu quarto, é a exceção. Quando Laura some depois de uma discussão, Alice fica desconsolada e passa a escrever cartas sobre a relação das duas - e percebe q...
