"Anjos como você não podem descer pro inferno comigo"
Inacreditável. Uma única frase me fez perder as estribeiras e me desconcentrar pela milésima vez. Enfiar minha cara no livros costumara ser meu refúgio nos meus momentos mais difíceis, mas hoje é exceção.
Ler é um hobbie prazeroso que se mantém fielmente como meu passatempo favorito pro horário vago.
Leio o bilhete mais uma vez, e com as mãos trêmulas o jogo de qualquer jeito na bolsa, acomodada no assento ao meu lado.
Caminho em direção ao balcão e aceno gentilmente para bibliotecária que retribuiu o gesto ao pôr seu par de olhos castanhos em mim. O lugar é de tamanha restrição em questão a desmasiada falácia, e a moça repreende uns estudantes que -provalvelmente- vieram aqui com outras intenções.
━━━ Aproveitando muito seu turno? ━━━ Ela ajeita os óculos de armação arcaica que insistem em escorregar pelo nariz e discretamente seu dedo aponta para os mesmos jovens, esses que levaram esporro dela, e seu semblante se fecha numa cômica careta.
━━━ Não vai levar nenhum livro hoje, Howard? ━━━ Nos entreolhamos enquanto ela se atenta nas tarefas designadas na tela a sua frente.
A última coisa que eu faria era deixar essa biblioteca sem um livro, pequeno que seja, mas minha vida pela primeira vez se iguala a uma história ficcional que acostumara ler.
━━━ Tô meio ocupada... Estou escrevendo uma peça. ━━━ Não menti, omiti uma verdade. Ela não precisa saber que a maior causa do meu abalo literário é meramente culpa de um "romance" mal resolvido, com um traficante.
Ela sorri de orelha a orelha, claramente feliz pela minha conquista. A mais velha foi uma das únicas com que me abri e dialoguei sobre metas para o futuro. O meu redor -familia e amigos- se mostram sempre entretidos com outros assuntos fora da minha bolha, e por esses e outros enes motivos nunca me enxerguei numa posição de superioridade para encerrar esse ciclo.
━━━ Que notícia maravilhosa! Você merece. ━━━ Ela se autocorrige após o clima de êxtase, cobrindo a boca com a palma da mão, por isso cochicha as duas últimas palavras de bajulação.
━━━ Eu preciso ir. Pra supervisionar os testes. ━━━ Explico devido a sua súplica para estender a conversa.
Reviro os olhos com a certeira contuda que o ruivo teria se estivesse aqui. Pelo pouco que convivemos, sei que odiaria o fato de que a mulher a minha frente quer a todo custo conversar, divergindo uma simplória conversa num monólogo.
Encontro com a minha dupla, a dona de crespos belíssimos e estilo de roupas similares à patricinhas dos anos 2000. Ela que me guiará no grande desafio que vai ser escolher bons atores para seus respectivos papéis.
A peça não só tem um valor sentimental e pessoal, mas também, recuso-me a produzir algo mal feito ou armador só por estarmos nos tratando de uma peça escolar. Isso não quer dizer nada.
━━━ Oi Rue! ━━━ Trombo com ela no percusso até o auditório e ela gargalha revelando seu uso de drogas. Ela dá um passo longo numa clara tentativa de fuga, em seguida choca seu rosto contra a porta que concede passagem pro outro corredor.
[...]
Mesmo acomodada numa cadeira revestida por macio pano, minha bunda começa sofrer os danos de uma sessão de mais ou menos umas três horas.
Presa no limbo das exigências do professor que para minha infelicidade -ou não- se juntou a gente para nos direcionar melhor, segundo ele.
As atrizes loiras entrando e saindo no palco embrulham meu estômago. As falas do roteiro, baseadas nas da minha irmã cansam ao ponto de me crucificar mentalmente por tê-las posto no texto.
Reparo no comportamento egoísta e complexo de white people problem com que as meninas cenam e não sei se fico feliz ou assustada por estarem interpretando isso com tanta maestria.
━━━ Acho que por hoje é só. Preciso mesmo ir. Parabéns a todos que compareceram. ━━━ Me despeço brevemente recolhendo meu material e dirijo-me a porta dos fundos, alheia a qualquer coisa que pudessem ter dito após minha saída.
Alcanço minha bike a alguns palmos de distância e monto nela. Antes de dar partida no veículo de duas rodas, puxo meu celular procurando vagamente por uma playlist que pudesse me acalmar.
━━━ Não acredito... ━━━ Em sequência dos encaixe perfeito do fone sem fio em ambos ouvidos suspiro fundo me sentindo numa luta de UFC, decorrente da intensidade do soco que as palavras da música me ferem o peito.
Wish we never talked
( gostaria que nunca tivéssemos conversado)
Wish we never saw
( gostaria que nunca tivéssemos nos visto)
But now I know you're just too far
( mas agora eu sei que você está longe demais )
To catch you with my arms
( para te pegar nos meus braços)Wish I never met you
(gostaria de nunca ter te conhecido)
Wish I never touched your hand
( gostaria de nunca ter tocado sua mão)
On the day I really thought
( no dia em que eu realmente pensei)
You are the only one
( você é o único )
That I could ever really love
( que eu poderia realmente amar )Abro e fecho os meus olhos em negação e não tão longe assim avisto Rue e Fezco no meio de uma conversa, não muito amigável assim. Isso porque ela, alterada, aponta o dedo na face do ruivo que parece não estremecer com a soberba postura da cacheada.
Se eu for espiar vou estar sendo fofoqueira ou uma comentadora de grandes boatos e eventos? Com a segunda opção em mente, seguro no guidão da minha bike e dirijo-me sorrateiramente pra perto.
Engatinho pelo monte de plantas que cercam o redor e sobreponho meu cotovelo na base de concreto.
━━━ Claro que nós somos amigos, Rue. Mas você só atrasa meu 'trampo ━━━ Ele abaixa a cabeça, cabisbaixo por ter que chutar sua única amiga de sua vida.
━━━ Você é um filho da puta egoísta.
━━━ Egoísta? Por querer o que é meu? Por tentar te livrar dessas merdas? Você roubou uma mala de drogas. Sim roubou, porque você não vai vender. Vai usar!
Rue não estava sóbria? Depois da cena de mais cedo não me restava dúvida, mas ainda sim. Ela mentiu pra todo mundo com uma história falsa.
Abano as mãos ao ar tentando afastar um mosquito que veio azucrinar, cantando no meu ouvido freneticamente. Provalvelmente o bicho continua me rodeando pela minha sudorese incontrolável, diante dessa discussão calorosa que escuto de camarote.
Me ponho de pé, bato ambas as pernas aflita que não percebo quando bicudo uma das rodas do meu veículo e acabo caindo com tudo no chão.
Droga, eles me ouviram.
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𝗔𝗟𝗟 𝗙𝗢𝗥 𝗨𝗦 | lexi and fezco.
Romance❝ Por que você não acredita quando alguém te elogia?❞ Acostumada vivendo na sombra da sua irmã, Lexi começa enxergar seu verdadeiro valor após uma conversa com o traficante de seu bairro, Fezco.