Quando pararmos de dançar, eu morrerei

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Estamos no topo de um edifício alto dançando inebriados pela paixão. As nuvens são nosso teto, pois, diferentemente de um filme ou de um livro de romance, as estrelas estão tímidas hoje. Não as verei pela última vez. Mas não me entristeço. Muito pelo contrário.

Danço contigo sabendo que não mais nos veremos. Que apesar de doerem, meus pés pedem mais. Danem-se os calos! Que se ferrem as minhas pernas e, perdão, as suas também. Porque não posso deixar que você pare. Que esse encanto se encerre.

Vibro com o som dos carros passando lá embaixo na rua. Dou voltas arriscadas em movimentos que nem sabia que podia dar. Salto para longe do seu corpo por um segundo e, meu Deus, como dói! É uma prévia do que terei pela frente quando a música parar, quando nos despedirmos para sempre. Corro de volta para você no meu vestido amarelo e nosso abraço é mais forte. Você me segura como um anjo e não permite que eu tropece.

Sorrio sabendo que sou amada. Ou que fui. E que, por esta ser minha última noite viva, que sempre serei. Sorrio e os músculos do rosto parecem os de outra pessoa. Acho que já é minha alma se acostumando a partir. Se preparando para o Outro lado. Se é que existe.

Dou um passo para frente. E depois mais um, que lhe surpreende. Enxergo a dúvida nos seus olhos e meu sorriso aumenta. Minha mente recita tudo isso pra você, que nunca, NUNCA saberá que nossa última conversa aconteceu somente na minha consciência. Suspiro, triste.

Deixarei você. E você chorará por não ter mais notícias minhas. Talvez daqui a uns dois anos alguém lhe diga que morri. E você se sinta um pouco aliviado por eu não ter simplesmente ido embora sem me despedir.

Amanhã você acordará, fará a barba, viverá o dia.

Eu estarei gelada.

Meus últimos suspiros devem estar próximos, porque a tontura me consome, a visão enturva um pouco e os sons parecem terrivelmente agudos na minha cabeça. Tento me agarrar a você para um último beijo. Tinha a esperança de que fosse demorar mais. De que eu daria uma volta mais tarde, bela neste vestido caro, e você me admiraria saindo daqui. Mas, pelo visto, após o beijo você se surpreenderá por segurar não mais uma dançarina, mas um corpo sem vida.

É muito forte. Sou muita fraca. Sinto o chão se aproximando e seu rosto ficando lá no alto. Morrerei sem seus lábios.

Em alguns instantes, algumas horas antes do previsto, meu coração parará.

Palavras Perdidas (Achadas)Onde histórias criam vida. Descubra agora