"Vou fazer um monólogo", alguém disse.
Ann Rick estava sozinha, o precipício se abria diante dos pés dormentes. A morte esperava, paciente, a alguns metros. Um pulo e toda a vida desapareceria.
A garota decidiu aproveitar para terminar seu último piquenique. Pegou a cestinha cheia de torradas de pão integral e frutas secas e aproveitou a refeição. A língua sentia a textura da comida fria enquanto a mente vagava numa velocidade incalculável.
"Estou pronta para morrer?", ela se perguntava. "Pronta para este passo? Um pequeno passo para um elefante, um grande passo para a morte."
Ela avistou uma aranha passando por perto e ficou feliz ao ver o inseto. "Teu pulo mortal, pobre aranha, não é mortal. Tens toda a teia a tua disposição."
O pequeno animal começou a falar com a garota: "Um pulo mortal é sempre mortal. A morte está em todo lugar."
"Você fala! Será que estou doida?", a menina gritava.
"Claro que não está", foi a resposta.
"Por que você está conversando comigo?"
"Isso não é uma conversa, sua boba. É um monólogo."
"Um monólogo?", a garota estava intrigrada.
"SIM. Para ser diálogo eu precisaria ser um ser humano."
"Mas como eu posso falar contigo?"
"Porque eu não sou uma aranha."
"Não é uma aranha? O que você é, então?"
"Você", a outra respondeu.
"Eu? Mas eu não sou aranha! Sou uma garota triste comendo comida ruim para fica mais triste ainda."
De repente a menina olhou para cima e viu enorme aranha comendo uma torrada seca.
"Eu sou a aranha?", perguntou, por fim.
"Todos somos aranhas. Fazemos casas fracas, atraímos vítimas para elas e damos o golpe fatal."
"Mas agora que sou tão pequena não posso me jogar do precipício."
"E por que você faria isso se pode voar?"
"Voar?"
"SIM, OLHE AO SEU REDOR."
A menina via seus braços cheios de pelos, ou melhor: penas.
"Virei um pássaro?"
"Não."
"Como não? O penhasco está lá embaixo, agora. Estou no céu."
"Todos nós estamos no céu. O buraco é sempre mais embaixo."
"Eu sempre estive no céu?"
"Sempre", disse o inseto que era, agora, uma nuvem. "O céu é em qualquer lugar."
A pobre jovem fechou os olhos. Ao abrir estava caindo no precipício.
"Socorro! Estou caindo!", gritou.
"Não era isso que você queria? Não é por isso que veio até aqui?"
A menina via o chão se aproximando e esbravejava. Os gritos não podiam ser ouvidos por ninguém. E, mesmo se pudessem, ninguém poderia ajudá-la.
"AHHHHHHHH!!!"
"Você está tendo o que desejava, não? Por que vocês humanos pedem as coisas e as ignoram depois de conseguir?"
"AHHHHHHHH!!! SOCORRO!"
"Veja: o pôr do sol é belo", disse a aranha."
"Mas está de dia."
"Você está caindo em um buraco e está pensando na pontualidade do meu relógio?"
"Por que não cheguei ainda no fundo?", a garota quis saber.
"Alice, a vida é assim. Nunca sabemos a distância entre o céu e o fundo do fundo do fundo do fundo."
"Não me chamo Alice."
"Quem disse, aranha?"
"Pensei que eu fosse um passarinho."
"E eu que você fosse uma menina."
"E sou."
Agora o buraco estava no fim. A menina desistira de gritar. "Era o que eu queria", pensou, convencendo-se a não ficar triste pelo triste destino.
"Não volte atrás com seus pedidos."
"Por que eu não me lembro de ter me jogado do precipício?", quis saber Ann Rick.
"Porque você nunca esteve lá."
"Eu... Nunca..."
"Se estivesse tão perto da morte assim eu já teria te empurrado."
"Como uma aranha pode empurrar uma garota?"
"Você não é uma garota!"
"O quê???"
"Olhe pra mim."
A aranha viu uma garota sorridente.
"Você sou eu?"
"Eu já havia dito que sim."
"E quem EU sou?"
"Você é o precipício."
"Que louco! Eu pensei que você fosse a morte!"
"A morte não pode matar a si própria. VOCÊ é a morte."
"Sou?"
"Sim. Abra seu olhos."
"ELES JÁ ESTÃO ABERTOS!"
"E por que ainda vejo dois olhos fechados?"
A menina abriu os olhos e viu uma menininha no topo do precipício, comendo seu último piquenique. "PULE!", a garota disse.
A menina que comia o piquenique se aproximou e disse: "É hora de pular".
E pulou.
E pulou.
E de repente percebeu que flutuava.
"Eu não sabia que podia voar."
"Todos os seres humanos podem."
"Obrigada por estar aqui comigo e ter conversado sobre isso" agradeceu a garota pulante à outra.
"Não conversei com você."
"O quê?"
"Isto é um monólogo."
"Então como eu consigo falar com você e voar?"
"Eu sou a morte. Faz horas que você se jogou do penhasco e quebrou todos os ossos."
"QUÊ??? ENTÃO POR QUE ESTOU VOANDO?"
"Humanos não voam!"
"Mas você disse que voavam!"
"Nunca acredite na morte."
A menina pegou a cesta de comida de cima da mesa e sentiu vontade de ir ao banheiro. Estava com dor de barriga.
"Acho que não vou ao piquenique hoje."
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Palavras Perdidas (Achadas)
De TodoUma coletânea de textos, poemas, pensamentos e ideias aleatórias autorais ou algo do tipo. Palavras soltas, versos livres demais, períodos frouxos, frases sem pé ou decapitadas. Por aqui, deslize suavemente ou caia sem aviso num mundo de palavras q...
