Me vejo na casa dos meus pais, aniversário da minha mãe, eles estavam tão felizes. De novo não... Tudo acontecia do mesmo jeito, ela me mandava correr mas dessa vez eu não corria, ficava e via eles morrendo, o jeito como minha mãe gritava desesperada se agarrando a barriga dela e eu não podia fazer nada, o meu pai tentando se arrastar até ela, os gritos ecoavam na minha cabeça, e eu só pensava em morrer, para isso acabar, até que eu acordo. Ofegante e sentindo gotas quentes descerem descontroladas pelo meu rosto, percebo que minhas mãos estão molhadas e quando olho vejo sangue, muito sangue. A princípio não entendo, mas percebo que o fato de fechar meus punhos com muita força fez com que minhas unhas cortassem fundo. Merda - digo ainda com borrões do sonho passando na minha visão, levanto e vou até o banheiro lavar as mãos, a parte boa é que a dor física tava conseguindo destrair minha cabeça do sonho, sento na cama e sinto um frio na espinha só de pensar em dormir denovo e rever tudo, fico sentada olhando pela janela, ainda tentando controlar minha respiração. Fico o resto da madrugada acordada, em transe olhando pela janela até o primeiro raio de sol atingir meu rosto e me fazer despertar e perceber quanto tempo eu tinha ficado naquela posição, olho para as minhas mãos e vejo os cortes, não sangram mais, porém estão bem abertos, e doloridos. Me arrasto até o banheiro e tomo um banho, deixo a água cair por todo meu corpo na esperança de que ele leve as memórias ruins, mas não acontece. Saio, prendo meu cabelo em coque bagunçado, mas que fica bonito, coloco uma calça rasgada que tem umas correntes legais, um blusão preto e meu coturno. Um pouco de corretivo para esconder as olheiras e pronto. Pego a mochila e desço, para aguentar mais um dia como se minha vida não fosse uma merda.
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Bom dia querida, acordou cedo em? Mas eu também, então o café já está na mesa. - tia Karen fala com a animação de sempre dela. Ah eu tô sem fome tia, agradeço. Vou andando para a escola tá? Dá mais uma conhecida na cidade. - digo indo em direção a porta. Não, não, dona Katherine, não vai sair sem comer, vem logo - ela fala apontando para a mesa. É sério tia, agradeço mais não quero, tô sem fome - vejo o olhar dela ficar diferente. Aconteceu algo? Você quer conversar comigo, sabe que estou aqui ne? - ouço ela dizer e só penso "começou" Ah, maçã, eu adoro, vou comendo no caminho - digo pegando uma maçã e abro a porta. Não foge do assunto Katherine - ela vem vindo atrás, saio correndo pela rua. Até mais tarde tia, beijos. - já estava um pouco longe mais vejo ela na porta me olhando, apenas sigo meu caminho.
Chego na escola cedo demais, não tem ninguém, mas já está aberta, entro e vou para o refeitório, deito em uma das mesas coloco meu fone e fico olhando para o teto. Até que vejo um vulto ruivo na minha visão periférica e a cara de uma menina branquinha, de olhos claros e sardas no rosto brota bem perto do meu rosto. Oi! - diz a menina. Levanto rápido, tomando um pequeno susto e tiro meus fones. - Oi, quem é você? Max - ela estende a mão. Apreensiva aperto a dela e ela percebe minha cara de dor quando nossas mãos se apertam. Kath - digo. Tá tudo bem? Aconteceu algo com a sua mão? - ela pergunta como se estivesse curiosa e preocupada ao mesmo tempo. Escondo minha mão na barra da camisa. - tá, tá sim. Ah... acho que já vi você. Bom, estamos na mesma sala, então é provável - ela responde. - sei que é prima do Mike, eu sou amiga da namorada dele, não sei se já ouviu falar de mim. Namorada? - falo completamente surpresa - Mike Wheeler tem uma namorada? Tem ué, você não sabia? - ela pergunta confusa. Não, cheguei aqui faz pouco tempo, aquele cabeca oca não comentou isso. - digo. Bom, marquei de encontrar com ela no shopping hoje, depois da aula, se quiser pode vir com a gente, e aí você conhece ela - a garota fala e da um sorriso gentil. Ah... eu agradeço, mas acho que não vai da, eu tenho compromisso para hoje, desculpe. Quem sabe outro dia. - não pretendia fazer amigos, sou melhor sozinha. Ah claro, a gente marca outro dia então - Max diz. - bom eu vou no banheiro e depois para a pista de skate, até logo, foi bom conhecer você. Valeu, digo o mesmo a você, até. - ela se distancia, sozinha novamente, as lembranças voltam, minhas mãos latejam e tremem, a respiração descontrola. Merda uma crise agora não. Pego meu remédio de ansiedade, pego uma pílula, olho ela e penso, logo depois pego mais duas pílulas, engulo as três e tento me acalmar. Pego uma garrafinha na minha bolsa. Só assim para eu aguentar essa merda de dia - viro na boca e sinto o líquido descer queimando minha garganta, vodka. Os sintomas da crise estavam começando cessar. Ei, eiii, EI! - me assusto e olho para o lado - ta bem? - Eddie pergunta. Não te interessa! Não vem atrás de mim! - pego minha mochila e saio cambaleando pelo o refeitório, esbarro em umas cadeiras mas saio dali. Entro no banheiro suada, me olho no espelho e no reflexo vejo o garoto entrando no banheiro. - qual o seu problema..? - falo mais baixo e bem mais calmo do que eu pretendia, talvez misturar o remédio com álcool não foi uma boa ideia. Eu que pergunto - ele fala se aproximando - o que tá rolando garota? Você ta péssima. Não é nada, sai daqui, por favor... - minha visão ficou turva, merda. Katherine eu não vou deixar você morrendo sozinha no banheiro - ele fala me olhando pelo reflexo do espelho. Deixa, eu vou ficar com eles, me deixa ir - imploro para ele. O que? Você tá chapada, usou droga? - ele pergunta sério. Não... só vodka - admito. Não, não, vodka não faz isso não, o que mais usou, me fala logo garota, você tá toda branca eu preciso saber o que foi. - ela pega meus ombros e me vira para ele. Nada - insisto. Fala logo. - ele diz preucupado, porque ele tá preucupado comigo? Garoto esquisito. Ah sei lá, só tomei um antidepressivo - falo. Merda. - ouço ele dizer e depois disso tudo fica escuro.
Pov: Eddie
Saio do banheiro com a garota desmaiada em meus braços, no que eu me meti? ou melhor no que ela se meteu. penso em levar para a diretoria mais mudo o trajeto e levo ela para o carro do meu tio, coloco no banco traseiro, entro e saio em direção ao hospital. Uns minutos depois vejo ela abrindo os olhos pelo espelho, ela senta no banco e olha pela janela, depois me olha. Que? Para onde estamos indo? - ela pergunta Hospital - respondo Não! Por favor não, Eddie eu imploro não me leva, meus tios não podem saber, ninguém pode. - ela fala meio desesperada. Você precisa de médico Katherine - falo óbvio. Não preciso, já passou, para o carro - ouço ela dizer, mas continuo. - Munson eu disse para parar o carro. Não - respondo. Ela pula para o banco da frente - Eddie por favor eu nao posso da entrada no hospital. Eu não respondo, apenas continuo dirigindo. Merda, Munson! - ela dá um soco na própria perna e encosta a cabeça no vidro, ficando quieta. Desvio do hospital e dirijo para um lugarzinho que eu sempre ia na floresta, paro o carro e olho para a garota, continua na mesma posição e em silêncio. Ouço ela suspirar e ela fala quase em um sussurro - valeu... Me explica que merda tinha cabeça para fazer aquilo? Podia ter sido bem pior. - digo olhando para ela que ainda não havia se mexido, desço o olhar para a mão dela e vejo sangue. - Ei garota, você tá sangrando. Pego a mão dela e ela puxa de mim. - eu não sei que tipo de riquinha drogada é você, mas você fez merda e eu te ajudei, então para agir assim. Eu sou a porra do tipo de riquinha drogada que nao tem pais, que tá nessa merda de cidade para não ir para um orfanato, que tem grau alto de depressão e tem que viver entupida de remédio, e quase toda noite rever os pais morrendo em sonhos sem que possa fazer nada. Eu nao pedi sua ajuda Munson, entao não espere gratidão, esqueça que eu existo e não se aproxime mais - ela explode, sai do carro me deixando em choque e sem reação, vejo ela se embrenhar na floresta, tento impedir mais a voz nem sai, tento assimilar tudo que acabei de ouvir.