Os minutos se arrastaram naquela pequena cabine enquanto a água do mar se chocava contra o casco do navio, produzindo um barulho repetitivo e hipnótico. Por mais de uma vez naquele meio tempo, James adormeceu e acordou, constatando com pesar que não se tratava apenas de um pesadelo como havia pensado.
Ouviu passos e a porta se abriu de chofre, permitindo que um homem sujo e de aparência grotesca entrasse. Ele segurava em uma das mãos um par de grilhões e na outra um molho de chaves. Pela cabeça de James passou a ideia de atacá-lo, roubar-lhe as chaves e então roubar um escaler, para fugir daquele navio dos infernos! Mas seu plano foi dissolvido com a entrada de um segundo pirata na cabine, este empunhando a espada em uma mão e com uma adaga presa ao cinto.
Sob a ameaça da lamina cortante, teve suas atuais correntes soltas e substituídas por outras, na frente do corpo. Foi guiado até a cabine do capitão sendo ameaçado com a ponta da espada há todo momento. A porta foi aberta e ele, jogado dentro do cômodo. Estava parcialmente confuso com toda a mudança de cenário em tão pouco tempo, mas teve tempo de analisar os aposentos. Tamanho razoável, decoração modesta. Escrivaninha, mesa, cama.
– Gosta do que vê Conde Northwhere? – se assustou ao ouvir a voz ardilosa do capitão às suas costas. Girou nos calcanhares, encontrando-o há poucos centímetros de distancia de si. Engoliu em seco, algo naquele homem exalava perigo.
Havia trocado as vestes vermelhas, por um veludo azul-escuro, com chapéu combinando e um pensamento divertido cruzou a mente do jovem nobre, "este pirata tem um gosto bastante refinado". Pela segunda vez naquele dia recebeu um olhar repreensivo e teve quase certeza de que o outro havia ouvido o que pensara.
– Por favor, sente-se e coma. Deve estar faminto. – foi quando notou a mesa no canto da cabine, repleta de alimentos e garrafas de vinho. Aproximou-se em passos vacilantes e levou a mão até uma das garrafas, destampando-a e bebendo direto do gargalo, afinal não precisava de cerimônias para um pirata.
– Eu quero... Saber tudo o que... Você me prometeu que diria. – disse enquanto apontava para o outro com o dedo indicador, falando entre goles de bebida. Nunca pensou que um pouco de vinho lhe faria tanta diferença.
– Sou um homem de palavra Conde, apenas sente-se e eu lhe deixarei a par do seu papel no desenrolar do trágico destino meu e de minha tripulação. – obedeceu ao outro e sem tirar os olhos fixos daquele homem jovem e misterioso, esperou.
– Meu nome é Morgan Wilthmore e há 500 anos eu e meus homens temos vagado por estas águas ingratas em busca de um descendente vivo dos Northwhere. Sim, você não ouviu errado, eu disse exatamente esta quantidade de anos, surpreso por eu poder ouvir seus pensamentos? É apenas uma dos efeitos colaterais desta praga que nos assola. – Morgan se aproximou do Conde e esboçou um meio sorriso enviesado.
– Há exatos 600 anos, o antigo capitão deste navio, Ernest Gray, ainda um humano normal, entrou em uma batalha acirrada com uma tribo de nativos praticantes do voo doo. E é aqui que a história começa a ficar interessante. Durante a batalha, Gray abateu o filho único do chefe da aldeia. O pai desolado resolveu que toda a tripulação do navio deveria pagar por aquela morte. – Morgan parou por alguns segundos, dirigiu-se até um pequeno armário próximo a sua cama e retirou uma garrafa de cristal que continha um liquido vermelho e espesso demais para ser vinho. Tomou um gole e voltou a se aproximar de James.
– O homem era um bokor, um feiticeiro poderoso capaz de manipular os espíritos e fazer com que as coisas acontecessem. Pelo que eu ouvi, ele invocou algo muito poderoso e ordenou que atacasse o Stella Sanguis sem piedade, não poderiam restar sobreviventes. E assim foi, mas algo saiu errado e ao invés da tripulação morrer, se tornaram "mortos que andam, mas ainda pensam". – uma nova caminhada ao pequeno armário, mais um gole do liquido vermelho e de volta ao lado de Northwhere.
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Sangue e Ouro
AdventureA vila Northwhere é um lugar pacato em uma ilha isolada, onde as pessoas vivem felizes sob a proteção do Conde James Northwhere, descendente de uma família de nobres que preferiu manter-se afastada da alta-sociedade. Tudo corria bem, até que um dia...
