Acordou com o som dos canhões e os gritos dos homens no convés. Desde que fora raptado perdera a noção de tempo e a distinção entre dia e noite, mas não precisou de muito para saber que a lua estava alta no céu. Sentiu um desespero encher seu peito com o que poderia acontecer com ele, trancado naquela cabine, sem saber o que se passava lá fora.
Sem pensar muito, levantou da cama, as correntes das algemas tilintando conforme se movimentava. Encostou-se na parede do cubículo e correu em direção a porta, dando o primeiro de muitos golpes contra o pedaço de madeira. E após uma série de investidas a dobradiça cedeu, caindo com um tilintar surdo contra o chão do navio.
Saiu sentindo uma dor muito forte no ombro direito, em decorrência do esforço para escapar. Ao subir para o convés, encontrou um verdadeiro cenário de batalha. Homens do rei haviam abordado o Stella Sanguis e estavam em um numero similar à tripulação, o que os deixava em quase desvantagem. James pensou em pedir ajuda, mas reconsiderou no momento em que um dos homens da companhia o atacou com a espada. Defendeu-se da melhor forma possível, colocando as correntes a frente da cabeça, produzindo um som de metal se chocando.
Seria morto por um dos homens para o qual pediria ajuda, tal constatação o encheu de desespero enquanto repelia os golpes da melhor forma que podia, mas não duraria muito tempo. Foi quando, em certo momento não conseguiu bloquear o ataque e foi ferido no ombro esquerdo, sentindo a dor se espalhar pelo local enquanto o sangue se esvaia de forma abundante.
– O sangue dele não é para ser desperdiçado, seu carniceiro maldito! – a voz firme de Morgan se fez audível e com a visão meio turva, James acompanhou a luta entre o pirata e o oficial.
Ouviu um baque surdo e observou o corpo desacordado do homem que o golpeou. Sentiu seu braço ser levantado e a ferida no ombro ser pressionada até conter o sangramento. Aos poucos Northwhere foi se recuperando e assim que viu o capitão ao seu lado, inquiriu sem qualquer receio.
– Tire as algemas e me dê uma espada! – o loiro piscou algumas vezes, sem conseguir decodificar a frase. O homem havia sido gravemente ferido há apenas alguns minutos e desejava entrar em uma batalha.
– Está louco? Não posso te deixar se arriscar de forma tão inconsequente, você precisa sobreviver para o sacrifício. – James fechou os olhos e suspirou, cansado daquela discussão que não chegaria a lugar algum. Segurou Morgan pela gola do casaco e o intimou enquanto dizia por entre dentes.
– Se quer estes ratos fora do seu navio, retire as algemas e me dê uma espada! – se não seria salvo, pelo menos protegeria sua vida até a chegada da lua cheia.
Wilthmore suspirou vencido e levou a mão até o cinto, retirando o molho de chaves, os grilhões caíram com um baque surdo no convés enquanto o loiro ajudava James a se levantar. Colocou a própria espada na mão do Conde, apesar de não estar muito certo do que estava fazendo.
Observou o outro cambalear alguns passos, para afirmar em seguida. Um dos homens da companhia o havia interceptado e por reflexo Morgan se levantou, esperando pelo pior. Mas a cena que se seguiu o surpreendeu por completo. Em um movimento firme e preciso James bloqueou o ataque da espada com a sua própria, para em seguida desvencilhar as laminas e investir contra o outro homem. Wilthmore pode ler os pensamentos do adversário do Conde. "Como consegue lutar se está ferido?" a mesma duvida incomodava o capitão.
James tinha um bom jogo de pés e a habilidade de duelo suficiente para surpreender qualquer um. Mantinha um braço brandindo a espada enquanto que o esquerdo, mesmo que ferido, ficava parcialmente estendido, o cotovelo dobrado, na típica postura de um esgrimista. Não demonstrava sinais de dor. Foi quando um segundo oficial se juntou ao primeiro, tornando a luta injusta.
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Sangue e Ouro
AdventureA vila Northwhere é um lugar pacato em uma ilha isolada, onde as pessoas vivem felizes sob a proteção do Conde James Northwhere, descendente de uma família de nobres que preferiu manter-se afastada da alta-sociedade. Tudo corria bem, até que um dia...
