Era o primeiro dia de aula e eu estava sendo torturado pelo calor e suando na minha cadeira. Como se não fosse tortura o suficiente ter que passar pelas Boas vindas aos transferidos, a sala queimava como um forno.
A representante de turma do último ano abanava os seios com um envelope de papel marrom na frente da sala. Ela estava preste a nos apresentar aos nossos "parceiros" - líderes do grêmio, nerds e atletas, é claro, que nos guiariam pela escola.
Observei as pessoas enfileiradas.
o bonitinho não. Qualquer um menos o bonitinho.
Ele estava no fim da fila. O de cabelo escuro bagunçado, braços definidos e pele dourada. Aquele que eu tinha medo de chamar de "bonitinho" até mesmo em pensamento, mesmo tendo acabado de fazer isso.
ele não. Qualquer um, menos ele.
Imaginei o chapéu seletor sussurrando no meu ouvido. Ele não, é? Tem certeza?. Sim, senhor chapéu pretensioso, tenho certeza. Se você conseguiu livrar o Harry da Sonserina, você consegue me livrar de passar as próximas horas com um atleta insuportavelmente bonito.
ele não, ele não, ele não...
O Chapéu Seletor não quebrou esse galho pra mim.
Seu nome era Marcus Ritter. Ele olhou diretamente pra mim assim que a representante disse meu nome. Quando nos apresentamos, o "oi" dele mais parecia como dar de cara em uma parede de tijolos. Enquanto todos conversavam, Marcus enfiou as mãos no moletom vermelho e ficou parado.
Ele continuou travado da mesma forma enquanto me levava até meu armário, passando pela biblioteca, e por todas as salas. Ele não tinha muito o que dizer e eu também não tinha muito o que perguntar.
Qual era o sentido, afinal? Só mais um ano nesta nova escola e eu iria embora. Em meses eu poderia começar a ser eu mesmo. Esse era meu sonho, desde que meu irmão mais velho havia saído de casa e desaparecido no mundo, sem contato, sem respostas, nada.
- Bem, é apenas isso. Se precisar de alguma coisa, é só me chamar- Marcus disse ao fim do passeio, bem quando eu achei que ele iria apenas virar as costas e me ignorar.
- Sério? Posso mesmo te chamar? - ele desviou o olhar e deu de ombros. - Eles te obrigam a dizer isso, né?
- Faz parte do roteiro.
- Melhor seguir o roteiro então- Falei e, do nada, Marcus soltou uma daquelas gargalhadas barulhentas.
Então ele meio que arregala os olhos e observa em volta, parando de rir, porque aquela conversa não fazia parte do nosso roteiro.
Ele passou os dedos pelo cabelo ondulado. Alguns dias eram escuros como a noite, em outros castanhos. Lembro que naquele dia, pareciam quase vermelhos.
Perguntei se ele achava que eu ia me encaixar naquela escola. Mas ele não respondeu, na real, ele estava olhando para o estacionamento atrás de mim. Meus olhos estavam concentrados nas árvores da escola atrás dele.
Depois nós chegamos a brincar que, no dia em que nos conhecemos, estávamos na verdade em uma competição muito séria para quem era melhor em não olhar para o outro.
- Tudo bem - eu disse, depois que ele não me respondeu - Eu não me encaixo em muitos lugares mesmo, pra falar a verdade.
Marcus sorriu- e eu roubei na nossa competição. Dei uma olhada rápida nele. De alguma forma, eu sabia. Havia encontrado outro deslocado. Caímos como luva um para o outro, Marcus Ritter e eu. Nos combinávamos como livros e chá de camomila, futebol e cerveja barata.
Eu era o livro e o chá de camomila. Ele era o futebol e a cerveja barata.
Naquele primeiro semestre, Marcus e eu existirmos em mundo diferentes. Mesmo quando cruzamos pelo corredor, a gente nunca se falava de verdade. Ainda assim, algo havia ficado no ar entre nós desde aquele primeiro dia, e seria necessário uma abalo sísmico para trazer aquilo à tona.
O Abalo sísmico aconteceu logo depois do Natal. Eu estava dirigindo até o marcadinho 24 horas quando o vi amuado no estacionamento. Pensei em passar direto e entrar na loja fingindo que não o vi. Mas seu rosto estava coberto de lágrimas. Ele estava vulnerável.
- Precisa de algumas coisa?- perguntei. Ele levantou a cabeça, viu que era eu e começou a rir.
- Isso não faz parte do roteiro, eu acho- Marcus disse, enxugando uma lágrima do rosto.
- Dane-se o roteiro- respondi.
Ele me olhou de um jeito diferente depois daquelas palavras. E foi assim que acabei confortando Marcus naquela noite, no gramado da esquina do estacionamento. Lembro que o seu cabelo estava escuro e suado.
Quando no fim da noite caminhamos juntos até seu carro, ele colocou a mão no meu ombro e apertou forte.
- Lembra o que você falou quando a gente se conheceu- ele começou, falando baixo. - Sobre não se encaixar em lugar nenhum?- meus olhos se espantaram. Olhei diretamente para ele, para seus olhos escuros. - Eu me sinto desse jeito também.
E, bem ali, o mundo mudou.
Agora, pensando bem, eu queria voltar para aquela pequena rachadura no universo, aquele espaço livre de culpa onde eu desejava apenas o toque de Marcus Ritter e nada mais.
Uma semana depois, eu estava sentado no banco de passageiro do carro dele, tamborilhando meus dedos suados. Eu estava quieto. Ele estava quieto. E quando ele finalmente tocou a minha perna e se inclinou para me beijar, eu me afastei. Aquilo realmente o deixou assustado, ele parecia querer morrer bem ali na minha frente. Mas eu precisava daquele segundo, daquele momento congelado no tempo, para me despedir da minha vida antiga.
Aquilo era tudo que eu precisava. Um segundo. Quando meus lábios finalmente tocaram os dele, eu juro, pude sentir nos dois no ar.
Marcus me ensinou a respirar. Um método de respiração que também envolvia se afogar, porque, cara, como o beijo dele era molhado.
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The explosion of everything
RomanceRegulus nunca pensou que faria algo do tipo "desaparecer por um tempo", mas quando o desespero bate a porta e tudo ameaça explodir, é isso que ele faz. Em uma aventura desastrosa, ele descobre mais sobre si mesmo e sobre sua família, além de amizad...
