trinta e um dia atras

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Quando pousei no Aeroporto JFK na manhã da minha formatura, me senti seguro.

Eu estava a um mundo de distância do pesadelo que seria o fim do ensino médio. E, acima de tudo, estava longe de Bella e de toda a confusão que ela estava prestes a causar para a minha família.

Contrariado, me obriguei a olhar meu celular. Àquela altura, a formatura já teria acabado. Imaginei toda uma cena, como se eu tivesse jogado uma granada, corrido para longe e, agora, estivesse conferindo se a explosão deu certo ou se foi um alarme falso.

Permaneci sentado na poltrona apertada do avião. Meu celular ainda não havia se conectado à rede. Balancei o telefone. Levantei o braço e o segurei no alto.

Finalmente, as barras de conexão apareceram no canto da tela. Eu tinha sinal.

E lá estavam elas: quinze mensagens, todas da minha mãe, do meu pai e de Marcus. Conferi as chamadas perdidas. Cinco novas mensagens na caixa postal. Voltei para as mensagens e comecei a ler.

Reg, cadê você?. Reg, está tudo bem? .Reg, por que você não está atendendo o telefone? .Reg, por que você não está em casa?. Aonde você foi? .Por favor, responda e nos diga que está tudo bem.

Respondi imediatamente. "Estou bem. Posso explicar" Depois prendi a respiração.

Porque, àquela altura, minha família já sabia. Certeza que sabiam.

Na semana anterior, Bella havia deixado bem claro que se eu não entregasse o dinheiro, ele contaria tudo durante a cerimônia. Ela até havia pensado em enviar a foto para os meus pais quando começassem a chamar os nomes dos alunos. A ideia de atravessar aquele palco ouvindo o silêncio da minha mãe, do meu pai e de todo o resto da família me dava vontade de vomitar.

Meu telefone vibrou. Era minha mãe: Que bom. Nós te amamos.

Devo ter encarado aquela mensagem por um minuto inteiro, olhando para a tela e para o avião. Todos os outros passageiros já haviam desembarcado.

Meu coração desacelerou enquanto eu assimilava aquelas palavras.

Minha família ainda me amava.

Peguei minha bolsa de mão no compartimento acima do assento e a apertei contra o peito. Passei as semanas anteriores imaginando como eles reagiriam à notícia. Será que achariam que era mentira?
Será que diriam a si mesmos que era uma montagem?
Independentemente do que concluíram - eles me amavam.

Me senti tonto enquanto caminhava para a saída do avião. Lembrei do meu placar colorido, todos os pontos positivos que, claramente, eu não calculei. Eles poderiam me surpreender. Eu deveria ter esperado o melhor deles.

Quando finalmente saí do avião, liguei para eles.

- Regulus? - minha mãe disse, freneticamente. - Ah, Reg. Nós estávamos tão preocupados!

- O que você tem na cabeça? - meu pai entrou na conversa. - Onde você está?

- Desculpa. Desculpa. Posso explicar - eu disse enquanto andava pelo corredor longo do aeroporto, passando por uma loja de conveniência. - Eu só fiquei com medo...

- Medo de quê? - Meu pai perguntou.

Meu coração parou. Fiquei de pé em frente aos banheiros fedidos do aeroporto, no meio das entradas para o masculino e o feminino. Eu estava confuso.

- Vocês ainda estão na formatura? - perguntei.

- Não. Te procuramos depois da cerimônia, mas você não estava lá.

Pensei nas próximas palavras com muito cuidado.

- Vocês conversaram com alguma das minhas primas...

- Nós perguntamos pra Narcissa se ela sabia onde você estava - meu pai disse. - Querido, que há de errado?

Querido. Sempre que eu ficava triste, meu pai pegava pesado com expressões carinhosas.

- O que aconteceu? - ouvi minha mãe perguntando ao fundo.- Onde você está, Regulus?

Eu estava surtando. Ao telefone, meus pais pareciam preocupados de verdade. Parecia que me amavam. Aquilo fez com que eu me sentisse ainda mais uma farsa.

Um anúncio tocou nos alto falantes: "Bem-vindos ao Aeroporto Internacional de Nova York..." Minha mãe e meu pai começaram a falar ao mesmo tempo, interrompendo um ao outro.

- você está no aeroporto?

- você está em Nova York?

- o que aconteceu?

Encerrei a ligação.

Fiquei parado, sem me mover, no meio do aeroporto lotado. Então Bella não havia contado para eles. Ela tinha dado para trás.

Alguém esbarrou na minha perna com uma mala de rodinhas, então decidi me mexer. Andei sem rumo pelo aeroporto. Não tinha a menor ideia do que fazer. Me sentia perdido, com minha mala e todo aquele barulho. Todas aquelas pessoas ao meu redor. Me dei conta de que ainda estava com meus fones de ouvido.

Meu plano tinha dado errado.

Eu não podia voltar para casa. Se voltasse, teria que explicar para os meus pais o motivo da minha fuga e lidar com a explosão pessoalmente.

E mesmo se eu conseguisse inventar uma boa desculpa para ter faltado à minha própria formatura, Bella ainda poderia usar meu segredo contra mim. Talvez ela não tenha dado para trás. Talvez só tivesse encontrado um jeito de elevar ainda mais o nível da ameaça.

Encontrei outro banheiro e entrei em um reservado. (Eu tinha visto fillmes adolescentes o bastante para saber que aquele era o melhor lugar para lidar com uma crise).

Aquela minha aventura fodida deveria terminar de uma das duas formas possíveis. Se meus pais aceitassem o fato de eu ser gay, eu voltaria direto para casa. Se não aceitassem, eu começaria uma nova vida.

Mas o que eu deveria fazer agora?

Saí do banheiro aos tropeços e quase dei com a cara em um daqueles painéis luminosos de embarque. Encarei a lista infinita de cidades.

Por que eu estava com tanto medo de voltar para casa? Por que eu não conseguia ser corajoso, marchar em direção aos meus pais e contar o que aconteceu e o motivo de eu ter perdido minha própria formatura?

Por que eu não podia me assumir para eles? Por que eu não podia simplesmente pronunciar aquelas palavras?

Meus olhos passearam pela lista de cidades. Chicago. São Francisco. Atlanta. Cada uma delas um convite, uma saída de emergência, um porto seguro.

Meu celular tocou. Estava vibrando durante todo aquele tempo, me dei conta, como se eu tivesse um vibrador amarrado na minha coxa.

Mas eu não podia atender. Simplesmente não podia. Mas, ao mesmo tempo, não dava para ficar em Nova York; meus pais sabiam que eu estava aqui. Eles poderiam me achar.
Eu tinha que ir para outro lugar. Chicago. São Francisco. Atlanta.

Passei as mãos pelas pernas e senti o volume do meu passaporte no bolso da calça jeans. Por que eu havia trazido o passaporte? Não sei.

Será que alguma parte de mim, quando imaginei a possibilidade de nunca mais voltar para casa, enxergou essa situação como uma emergência internacional, em que talvez eu tivesse que voar para fora do país? Loucura, eu sei.

Por outro lado, olhando a lista de possíveis destinos, não pareceu loucura na hora. Eu tinha meu dinheiro dos trabalhos. Poderia ir para qualquer lugar. E por que não algum lugar fora dos Estados Unidos?

Londres. Itália. Brasil.

Foi quando ouvi, a música era baixa, provavelmente vinda de alguma loja perto, mas enquanto eu olhava pra um painel de sorvetes coloridos, tocava "Vienna" do Billy Joel, a melodia conversou comigo como se o próprio Billy estivesse ao meu lado.

Ele dizia que eu poderia ficar, poderia ser o Regulus que meus pais queriam. Ou, eu poderia ser como Sirius foi, corajoso. Estava tudo bem se eu quisesse ir.

Agora, pensando bem, é muito louco como uma música pode literalmente mudar o rumo da sua vida.

The explosion of everything Histórias para pegar e não largar. Descubra agora