Capítulo 4

9 1 0
                                        

Quando o professor de Filosofia Antiga os dispensou pelo resto do dia, Noah coçou os olhos, suspirando longamente, cansado depois de quatro horas ininterruptas de aula. Ele não se arrependia do curso de Filosofia, muito longe disso: todas as vezes que Noah se sentia cansado por causa de seus estudos, mesmo o sentimento era satisfatório, como um dia de trabalho fazendo o que se gosta. Noah esperava que pudesse se sentir assim durante a maior parte de seus dias.

Não era muito incomum, principalmente em sua linha de estudo, que Noah ouvisse o quanto conhecimento — verdadeira compreensão do conhecimento humano — trazia miséria como recompensa. De certo modo, ele concordava com aquilo: entender o mundo e suas dores, as coisas escuras e inomináveis que existiam nele, as coisas que nem mesmo os piores pesadelos conseguiam capturar com fidelidade, era definitivamente um peso que a ignorância não carregava.

Entender o mundo com seus nuances, perceber que esses nuances eram sombrios, cruéis e ruins de uma forma imperdoável, tanto no sentido de ações individuais cometidas por uma ou outra pessoa quanto no sentido de o mundo inteiro — o sistema que o formava, as engrenagens da grande máquina que a sociedade deles formava — se baseava numa noção completamente hedionda de que, em todos os níveis sociais, para que alguns conseguissem uma vida digna, várias outras pessoas (centenas ou milhares, as vezes) seriam para sempre indignas do mesmo. Era uma visão tão realista quanto triste de um mundo que era completamente cego às crueldades de sua própria existência.

Havia um preço caro a se pagar por ter esse tipo de conhecimento, de compreensão. Principalmente quando confrontado com a ignorância do resto das pessoas — o que não acontecia muito agora que Noah estava na faculdade, embora o local de conhecimento não fosse por si só um indicativo de consciência —, ele se via muitas vezes chocado com a falta de consciência e mais vezes ainda sufocado pela noção isoladora do quão ruim tudo realmente era.

Mesmo assim, muito diferente da maior parte dos intelectuais, Noah acreditava firmemente que, exatamente porque o mundo era um lugar cruel, havia sempre falhas de felicidade completa e decadente em meio à todo aquele sistema, e era completamente responsabilidade individual achar ou construir essas falhas para que o mundo não parecesse mais tão cruel e sombrio. Para Noah, essas falhas, é claro, era tudo o que ele havia construído em Taigh Hill e com seus moradores.

— Noah, você vem ou não? — A voz de um de seus colegas de classe despertou Noah de seus pensamentos e ele olhou em volta apenas para encontrar a sala quase vazia, exceto pelo professor, que arrumava suas próprias coisas, e dois colegas de classe de quem ele se aproximara no último semestre.

Eles andaram juntos pelo campus até Noah avistar Chris, provavelmente também saindo de uma aula. Com pressa, ele se despediu dos colegas e praticamente correu até o amigo, que parecia excepcionalmente distraído desde que voltara de seu encontro bissemanal com a mãe, Jeane Evans. Ele e Oliver estavam preocupados com Chris desde o dia anterior, domingo, mas não tiveram a chance de conversar com o amigo porque Chris não lhes dera espaço para isso.

Não que ver Chris tentando esconder o que o estava machucando para não ser um fardo fosse uma coisa especialmente chocante — depois de seis anos convivendo e se tornando amigo de uma pessoa como eles tinham se dedicado a fazer, Noah sabia muito bem como Chris se comportava quando algo o incomodava. E também sabia ler as entrelinhas quando Chris apenas precisava de um momento sozinho. Embora esse caso fosse o primeiro, certamente não era o segundo também.

Por isso, Noah não teve nenhum escrúpulo em chegar para o amigo naquela manhã, determinado a jogar sujo para fazer com que Chris lhe falasse alguma coisa.

— Ei. — Noah chamou a atenção do amigo ao começar a andar ao lado dele e Chris, por sua vez, olhou para o lado como se estivesse surpreso de ver alguém ali. — Para onde você está indo?

Aos Poetas Decadentes - Volume 3Onde histórias criam vida. Descubra agora