Capítulo 3

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Oliver nunca fora uma pessoa religiosa, nem mesmo quando era criança: ele se lembrava perfeitamente bem do quão completamente tediosas e sinceramente vazias as missas com seu pai durante os domingos e as preces diárias com sua mãe no Shabat pareciam para sua versão infantil. Os dois tinham suas fés e nunca tinham aberto mão delas mesmo depois de casados, embora Anton tivesse parado de ir à Igreja depois que eles chegaram na Inglaterra quase oito anos atrás.

Oliver achava que era porque o pai não considerava mais a existência de Deus como relevante para sua vida, principalmente depois de tudo o que acontecera naquela última década na Alemanha. Quando conversara com Anton pelo telefone no dia anterior, Oliver não conseguira deixar de perguntar para seu pai se ele ainda acreditava em Deus e o pai não hesitara por um segundo sequer:

— Sim, é claro. — Dissera Anton, soando surpreso, talvez porque ele e Oliver raramente conversassem sobre esse assunto. E, quando ele perguntou então porque o pai não ia mais à igreja, Anton tomou um tempo para pensar, respondendo lentamente também: — Eu acho que é difícil para mim pontuar uma razão para isso, porque na verdade foi um conjunto de coisas. Eu acho que a maior delas foi que, não importavam quais fossem as minhas preces, todos os horrores e o medo continuavam vindo e, pela primeira vez na minha vida, eu não conseguia me sentir confortado pela minha fé porque minha fé não tinha efeito prático nenhum, não um real, pelo menos.

Aquela fora a melhor explicação que Anton conseguira lhe dar e Oliver entendera perfeitamente o que seu pai estava falando: pensar que a fé em um Deus fora o motivo para que eles conseguissem ser abençoados o suficiente para saírem da Alemanha à tempo era dizer que outras pessoas — aqueles não tinham escapado, aqueles que sofreram e continuavam a sofrer todas as consequências do que lhes fora infligido — tinham sofrido por falta dessa mesma fé e isso soava apenas... cruel demais.

Se ele fosse honesto consigo mesmo, Oliver não fazia ideia do motivo de sua curiosidade. Ele apenas... estava sentindo como se houvesse um terrível vazio dentro de si, a ausência de algo que ele não conseguia entender o que era, mas que estava lá, consumindo-o desde que eles tinham saído de Taigh Hill. Até a conversa com seu pai, Oliver não tinha percebido o que aquele sentimento realmente era, mas foi conversando com Anton sobre o assunto que ele finalmente compreendera.

Oliver nunca fora religioso, mas isso não queria dizer que ele não sentira o que sua mãe ou seu pai sentiam ao praticarem suas fés: na verdade, ele acreditava que sabia exatamente como eles se sentiam. Era um profundo sentimento de conexão, de comunidade, como se ele não estivesse nunca sozinho, uma sensação de complemento que não podia ser exatamente descrita por meras palavras. Era a certeza de uma companhia, conexão e entendimento que não tinham um ponto de ligação direto, mas que estava ali, brilhando dentro dele.

Era o que Oliver sentia em relação à música. Era o sentimento de que ele não estava sozinho, de que alguém mais sentia e entendia o que ele sentia, de que o coração de Oliver podia descansar. Ele acreditava que fé vinha desse sentimento em específico, um sentimento que muitos seres humanos sentiam e que tinha muitos nomes — para seus pais era Deus, para Oliver sempre fora música.

Para Annie, era Arte.

Para Chris, palavras.

E para Noah... para Noah era o profundo conhecimento do mundo e de todas as suas maravilhas e mazelas.

Oliver não conseguiu segurar o sorriso que se curvou em seus lábios quando sua mente se dirigiu para Noah, como era de praxe. Oliver não conseguia evitar: seu coração apenas se enchia demais para que ele controlasse qualquer reação quando Oliver pensava em uma das pessoas que mais amava no mundo.

Ele faria tudo por aquele garoto, moveria montanhas e ficaria noites acordado estudando com Noah coisas que definitivamente não estavam incluídas em seu curso. E definitivamente o acompanharia até a cidade apenas para que Noah pudesse se encontrar com os irmãos uma vez a cada duas semanas assim como eles tinham combinado — embora Isaac fosse uma presença constante no apartamento deles, principalmente quando Noah era quem fazia o jantar.

Aos Poetas Decadentes - Volume 3Onde histórias criam vida. Descubra agora