Cinco

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Concordamos em fazer um lanche ao invés de almoçar. Santa Vila possuía uma vasta opção de lanchonetes com os pães e tortas salgadas mais tradicionais. Encontramos uma lanchonete charmosa com mesas ao ar livre e decidimos sentar em uma delas. Pedimos sanduíches de carne seca e refrigerantes, e enquanto esperávamos nossos lanches, Antônio olhou para mim, debruçando-se sobre a mesinha de madeira, com uma expressão de determinação.

-Me desculpe, Marina! - disse Antônio - Não deveria ter falado daquele jeito... você tem acalmado minha mente esses dias.

Sorri gentilmente para Antônio, sentindo um calor reconfortante no peito ao ouvir suas palavras.

- Não precisa se desculpar, Antônio. Entendo que você está passando por um momento difícil. - toquei seu braço, fazendo um leve carinho com o polegar.

Antônio deu um meio sorriso, suspirou fundo e começou a contar o que tanto ocupava a sua mente.

- O fogãozinho era da minha irmã mais velha, mas eu sempre fui apaixonado por ele, desde que me entendo por gente. - Antônio deu um sorriso de canto e posicionou os óculos no rosto.

- Com licença. - disse o garçom posicionando a bandeja com os lanches, agradeci com um sorriso e ele se retirou.

Voltei minha atenção para Antônio, incentivando que ele continuasse a falar.

- Eu sempre brincava de ser um chefe importante, alguém me procurava precisando de um bolo com urgência e eu salvava a festa com um dos meus bolos. - pareceu perdido em suas memórias - Mas meu pai odiava, tentava esconder o fogãozinho, brigava quando me via brincando. E eu não estava fazendo nada demais. Com uns nove anos mais ou menos eu ainda tentava dar alguma explicação, mas era pior.

Mantive minha atenção fixa em seu rosto, tentando mostrar que me importava com o que ele estava dizendo. Em contrapartida, Antônio desviava o olhar, como se o tema daquela conversa o deixasse envergonhado.

- Teve uma vez que eu estava no quintal, brincando sozinho. Minha mãe tinha saído e ele estava cuidando de mim. Ele bebia muito sabe? Ainda bebe pra falar a verdade. - suspirou fundo - Deu na cabeça dele de ir até o quintal e lá estava eu, brincando. Ele surtou.

Coloquei minha mão em seu braço novamente, só queria mostrar que eu estava ali.

- Ele gritava coisas horríveis, eu nunca vou superar isso. - seu olhar era completamente nublado - Não me lembro bem do que aconteceu entre o momento em que ele gritava e o momento que o fogãozinho estava em chamas no chão do quintal.

- Não imagino o quanto isso possa ter sido horrível, Antônio. Você era só uma criança. - respondi.

- Sabe por que me doí tanto chegar lá em casa no natal e ouvir meu pai bêbado falando sobre como ele estava certo do meu fracasso com a padaria? - deu uma pequena pausa - Porque ele vai estar certo. Eu falhei mesmo.

- Eu sei que talvez você não queira ouvir isso agora, mas você não é um fracasso. - olhei fixamente em seus olhos - Você conseguiu fazer seu sonho existir, mesmo sem apoio do seu pai. Por favor, não pense assim.

Antônio piscou os olhos, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam escorrer. Ele me deu um meio sorriso, o gesto mais sincero que vi nele até então.

- Obrigado, Marina. - tocou no meu braço. - Não sabe o quanto aquela conversa me fez bem.

Sorri de forma genuína.

- Aquela noite me fez muito bem também Antônio, eu nem vi a hora passando. - admiti.

- Na verdade, tenho que te confessar uma coisa. - um sorriso tímido brotou em seus lábios. - Mas não fica brava viu?

Doce Clichê de NatalOnde histórias criam vida. Descubra agora