Quando acordei do meu primeiro sono de verdade desde a noite no hospital, percebi que estivera dormindo no ombro de Flynt. E ele estava acordado e me analisando.
Me endireitei na hora e esfreguei os olhos. Fazia muito tempo que eu não sabia o que era dormir.
_Quanto tempo eu dormi? – Perguntei disfarçando o fato de que eu provavelmente babei no ombro dele.
_Duas horas e meia. Chegamos em quinze minutos.
Durante os quarenta minutos em que estive acordada eu observei a paisagem, quando não tinha certeza de que dormir era uma boa ideia. Enquanto analisava o tópico, acabei caindo no sono.
A necessidade do meu corpo decidiu por mim. Mas agora que eu dormira um pouco, parecia que todo o tempo que eu deveria ter dormido voltara para mim. Quase não conseguia ficar de olhos abertos
_Quer dormir mais um pouco? – Flynt me perguntou.
_Não, não. Eu estou bem. – Respondi me ajeitando mais uma vez no assento, já que tinha deslizado para baixo de novo.
Flynt ergueu uma sobrancelha.
_Já estamos chegando. – Expliquei.
_Claro. – Ele disse e desviou o olhar para o outro lado do corredor, para a janela do outro lado.
Segui seu olhar e peguei uma garota o observando. Eu não a culpava, depois que você olhasse para Flynt, não ia querer parar. Sua visão era colírio.
Suspirei.
_O que foi? – Flynt me perguntou, voltando seu olhar para mim.
_Nada não. – Respondi. _Percebeu que tem uma admiradora?
_Você? – Ele sorriu convencido. _Isso foi antes ou depois de eu salvar a sua vida?
Revirei os olhos mas não consegui evitar sorrir também.
_Desde o primeiro segundo em que pus os olhos em você. – Acabei dizendo a verdade em forma de brincadeira. _Mas eu estava me referindo à garota que não para de te encarar desde que entramos no ônibus.
_Como sabe? – Ele perguntou erguendo uma sobrancelha. _Esteve dormindo o tempo todo.
_Mas estive acordada tempo o suficiente para captar o nível de adoração dela por você. E não é pouco.
Minha intenção era de mexer com Flynt. Provocá-lo. Mas o que ele fez me surpreendeu completamente.
Ele olhou para a garota que não conseguiu desviar os olhos a tempo. Ele continuou olhando para ela até ela olhar para ele novamente. Então ele sorriu e deu uma piscadela que a fez enrubescer na hora.
_Quanto o nível de adoração dela aumentou agora? – Ele perguntou descaradamente convencido.
Apenas balancei a cabeça.
Mas a verdade era que isso tinha me animado. Ou animado algo dentro de mim. Esse pequeno ato de Flynt me lembrou do Flynt que conheci no hospital, ao qual tive pouco ou nenhum acesso desde então.
O ônibus enfim chegou ao seu destino e nós descemos. Respirei fundo enquanto dava uma bela olhada na rodoviária lotada.
Flynt comprou dois lanches – o meu sem carne novamente, gostaria de saber em qual momento ele percebeu que eu não poderia nunca na vida comer um animalzinho – para viagem e então me escoltou para fora.
_Onde vamos? – Perguntei tentando acompanhar o ritmo dele.
_Pro metrô. – Ele respondeu parando à beira da faixa de segurança. Mais pessoas se aglomeraram à nossa volta e eu acabei espremida entre Flynt e uma mulher gordona com um terninho rosa.
_Acho que vou te perder de vista. – Eu disse pra ele. Era verdade. Assim que o sinal abrisse, a massa me empurraria pra trás, para os lados e para frente, tudo ao mesmo tempo, e eu não conseguiria seguir Flynt.
Mas um instante antes de o sinal abrir Flynt segurou firmemente a minha mão. E quando o sinal ficou verde o que eu imaginei aconteceu. Fui empurrada de todos os lados, a única constante foi a mão de Flynt, firme na minha, me guiando para fora multidão.
Quando, enfim, chegamos ao metrô, descobri que estava ainda mais lotado do que todos os outros lugares de Nova York que eu vi. Havia turistas, executivos, trabalhadores, estudantes e crianças por toda parte. Havia sons vindos de todos os lados. O lugar exalava vida.
Decidi, depois de uma olhada, maravilhada, em todos os cantos, que era o meu lugar favorito, junto com o meu carvalho.
_Vamos. – Flynt disse com a mão ainda em volta da minha.
Compramos os tickets e já pegamos o primeiro trem que parou. Havia apenas um lugar vago e Flynt o cedeu a mim.
_É seu por direito. – Ele afirmou. _Tem aguentado firme.
Eu até concordaria se ele não fosse o meu maior motivador emocional. De qualquer forma, logo uma senhora idosa entrou no vagão e eu cedi o meu lugar à ela.
Flynt e eu permanecemos lado a lado, agarrados na barra. Na verdade eu era quem estava agarrada nela, morrendo de medo de cair de cara no chão e quebrar o nariz. Flynt apenas se apoiava despreocupadamente.
Desconfiei que não faria diferença nenhuma pra ele caso as barras não existissem. Ele não era o tipo de pessoa que cairia de cara no chão quando o trem parasse, e não teria que ir ao hospital tirar um raio-X da face. Isso rendeu algumas piadas a Flynt, que provavelmente descobriu um novo hobby muito divertido: caçoar da minha cara.
Houveram duas paradas até descermos. Flynt andava sempre um passo à frente, me guiando pelas ruas. Dois quarteirões, dobra à direita, mais cinco e dobra à esquerda. Mais um e você via as casas mudando e as ruas ficando vazias. Mais três quarteirões e dobramos pra esquerda de novo. Mais dois quarteirões e estávamos de frente a um galpão abandonado.
_Bem vinda ao seu novo lar. – Flynt anunciou.
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SOMBRAS I (Revisado)
FantasyVivendo sozinha em Boston, tentando fazer uma vida para si mesma, ela tenta ignorar o frio na espinha e o terror cada vez que cai na inconsciência: Milla está sendo atormentada por pesadelos cada vez mais recorrentes, e cada vez mais reais. Sua vid...
