Capítulo 19

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Naquele dia, ainda fiz abdominais, flexões e polichinelos. Depois Flynt me ensinou algumas técnicas de defesa, como ele chamava.

Finalmente, pude ir tomar banho. Bem rápido e com água fria, nada a que eu já não estivesse acostumada. O fato de ser ao ar livre, no entanto, era novidade. Pelo menos pude lavar meu cabelo e me livrar daquela horrorosa sensação de sujeira. Ainda lavei minhas roupas que estavam em um elevado grau de sujeira.

_Minha vez. – Flynt disse passando por mim, quando eu terminava de pôr minhas roupas a secar.

Enquanto eu me encaminhava para dentro do galpão, Flynt retirou sua camisa, descobrindo o seu abdômen definido. Perdi uns segundos em admiração antes de me dar conta de que eu o estava encarando de boca aberta e que ele poderia me notar a qualquer momento. Finalmente voltei para dentro do galpão.

Gastei um tempo arrumando algumas coisas e preparando algo para comer, antes de Flynt aparecer com o cabelo molhado. Absolutamente lindo.

Olhei para ele, que sorriu:

_Já preparou o almoço?

_Sim. – Concordei com meu estômago roncando. Desde as sete horas eu estivera treinando com Flynt, me esforçando ao máximo. Agora já passava de uma hora da tarde.

Flynt pegou seu lanche e sentou-se na cama dele. Fiz o mesmo, sentando-me na minha.

_Deveria comer coisas mais saudáveis. – Eu disse encarando o meu sanduíche que aqueci no microondas que encontrei enquanto mexericava pelo galpão. _Seu colesterol vai aumentar loucamente desse jeito.

_Não sei cozinhar.

_Percebe-se.

Flynt me olhou atravessado. Dei de ombros.

_Que foi?

_Nada. – Ele disse sem desviar o olhar de mim.

Dei uma mordida no meu sanduíche, incomodada com o olhar de Flynt.

_O que você está fazendo? – Perguntei assim que engoli. Ele pareceu despertar e balançou a cabeça.

_Estava só pensando. – Ele deu uma mordida no hambúrguer dele. Mastigou me observando. _Você está quase sempre com o cabelo preso.

_Sim. – Concordei buscando a minha colinha e me deparando com o meu cabelo solto e úmido caindo sobre meus ombros. _É mais prático.

Ele concordou ainda me olhando por um tempo e desviou o olhar.

Me concentrei em meu sanduíche.

_Por que não corta, então? – Flynt perguntou recuperando a minha atenção depois de um tempo.

Balancei a cabeça.

_Não mesmo. Sou muito apegada ao meu cabelo.

_Mas seria mais prático, não é o que você quer? E é só cabelo.

_Pode ser só cabelo pra você. Definitivamente seria mais prático, mas eu não o cortaria não. De jeito nenhum. – Falei me agarrando ao meu cabelo com a mão livre.

Flynt riu.

_Tudo bem.

_Tudo bem. – Repeti. E então ficamos em silêncio.

_O que vamos fazer agora? – Perguntei.

_Tira o resto do dia pra descansar. – Flynt disse. _Eu vou sair.

_Sair?

_Negócios. – Ele respondeu antes de se levantar e sair porta a fora.

Babaca. Pensei.

Me levantando comecei a comparar os comportamentos de Flynt.

Quando nos vimos pela primeira vez, Flynt foi legal. Na segunda vez em que nos vimos ele fingiu que não me conhecia. Na terceira vez foi idiota. Na quarta se desculpou. Na quinta me fez querer ficar. Na sexta me deu motivos para confiar nele, além de me salvar, e desde então não se separou de mim.

Agora foi babaca como nas segunda e terceira vezes.

O que acontecia com ele? Era ruim justo quando parecia que as coisas iam bem!

Para gastar um pouco de energia, organizei tudo que estava fora do lugar. Dei uma limpada nas coisas, até no "banheiro".

E logo quando estava tudo pronto, voltei a pensar. Agora não em Flynt, mas em meu pai. Que estava com um demônio. Que não estava nada bem.

Que parte da casa pegara fogo? Seria o meu quarto? O quarto do meu pai, onde estavam as fotos da minha mãe? As únicas lembranças que eu poderia de fato ter dela, não as imagens horrorosas dos pesadelos.

Ou seria a parte da casa em que meu pai estava? Aquele demônio maldito havia matado o meu pai?

Saí para a rua para respirar, mas ali não havia o meu carvalho. Ali não havia um porto seguro, uma corda onde me agarrar.

Mas além de tristeza, eu estava sentindo raiva.

Raiva da minha mãe, por ter morrido. Raiva de meu pai, por ter sido controlado por um demônio. Raiva de Leo e Flynt por não terem conseguido matá-lo. Raiva de Bridget, aquela vaca demônio, que estava tornando a minha vida um inferno.

Mas eu estava, principalmente, com raiva de mim. Muita raiva de mim por não ter conseguido fazer nada, nem para salvar minha mãe nem para manter Bridget longe do meu pai, longe de mim, longe de qualquer coisa.

Chutei um toco no chão e ignorei a dor. Olhei em volta e encontrei o saco de pancadas. O pendurei em um galho grosso e relativamente baixo de uma árvore. Imediatamente comecei a socar.

Eu nunca havia feito isso quando ficava brava, mas também eu nunca ficara tão brava. Mais um soco. Uma expiração. Outro soco. Inspiração.

Parei depois de algum tempo, com os ouvidos zunindo e os nós dos dedos sangrando. Eu já não tinha mais forças para sentir raiva.

Escorreguei pelo tronco da árvore e ali fiquei sentada, com a cabeça escorada e os olhos fechados. Um pouco de sol aquecia a minha face. Algumas lágrimas escorreram e se misturaram com o suor do meu rosto.

Logo a melodia iniciou. Pássaros vieram voando e pousaram nos galhos da árvore em que eu estava e em árvores próximas.

Pelo menos alguma coisa aqui não era diferente.

Flynt chegou depois de um tempo e me encarou surpreso.

_Pendurou sozinha? – Ele perguntou e depois focou nas minhas mãos. Ele ergueu as duas sobrancelhas e deu um sorriso encantado.

_Não. – Eu disse me levantando. _Cantarolei e os animaizinhos da floresta fizeram tudo por mim. – Ironizei. Depois dei as costas pra ele e fui até o banheiro lavar as mãos e o rosto.

Eu estava sendo azeda. Eu estava redirecionando o meu sentimento de frustração e culpando Flynt por uma coisa que não era culpa dele.

_Está tudo bem? – Ele perguntou já logo atrás de mim.

_Não. – Respondi honestamente e me virei para encará-lo.

Flynt me encarou mudo por um tempo. Pude ver seu cérebro trabalhando. E então, de repente, ele me abraçou. Fiquei surpresa por um instante, mas então eu o apertei forte contra meu peito.

_Desculpa se eu fizer alguma coisa errada. – Ele disse. _Ou se eu fiz. Mas saiba que você pode contar sempre comigo. Sempre.

Assenti sabendo que aquilo eraverdade.

SOMBRAS I (Revisado)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora