Eterno pecador

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A alma de um condenado, que queimava em plenitude de um buraco de areia fria.

E o corpo de um pássaro enjaulado sendo guiado para o abate.

O corpo de Fyodor Dostoiévski foi depositado sobre aquela vala repleta de vermes como a si próprio, ou talvez melhores que a si mesmo.

Ele não esperava mais do que merecia.

Seu sangue já secara há muito. Desde que seus olhos não podiam mais ver as tão incandescentes luzes vermelhas de uma viatura.

Sua alma, que jamais pensara ter de verdade, riu diante todo o caos. Um coração inexistente poderia, então, parar de bater.

Um corpo era engolido pelos animais de baixa espécie, o espírito tocava um som doce e inebriante no violino de seus sonhos, enquanto um tão complexa questão pairava:

O homem a quem prometera libertar estava sendo preso?

Ou simplesmente chegou a hora de abrir a intocada gaiola?

Uma madrugada fria e chuvosa, seguida de uma manhã de céu nublado era o cenário perfeito para encontra-se um corpo em meio a um beco imundo e vazio.

Ninguém importou-se em recolher os destroços de um homem maldoso. E ninguém se importaria.

Mas ainda assim, aquela criança se curvou perante o corpo e o abraçou.

— Você é muito mau, mas ele era bom. E gostava de você. Então você não tem motivos para morrer assim.

E alma calou-se.

Absorvendo a simples frase que a criança havia dito a seu corpo frio e corroído.

Yumeno, um órfão de 12 anos que perambulava pelas ruas com seu boneco de pano remendado. O garoto se alimentava do que os outros jogavam fora, e dormia ao lado dos cachorros de rua quando sentia frio.

Dostoyevsky jamais imaginara que as palavras de uma criança lhe fizessem escrever cartas para Nikolai. Jamais imaginou escrever para Nikolai.

Jamais pensara que o seu maior desejo, algum dia, poderia ser permanecer ao lado de alguém que lhe matou.

O espírito de Fyodor abandonara seu próprio corpo ao relento, junto daquele garoto que se despedira de sua alma com um aceno e um sorriso que lhe recordava o platinado.

E passou a fazer morada na cela pequena e fria onde Nikolai Gogol estaria cumprindo sentença por tê-lo assassinado. Uma cela que deveria, desde o começo, ter sido sua.

Admirava todos os dias as belas e dolorosas palavras que Nikolai desejava lhe falar, escutava seus lamentos de um fracasso tão épico, secava suas lágrimas sorridentes com um lenço de seda. Escovava seus fios claros com um pente de marfim, e dançava em direção ao seu fim.

Nikolai dormía pela manhã, escrevia ao entardecer e dançava noite adentro. Fyodor estava aprendendo a dançar com ele, aprendia sobre um pássaro intocável, uma tela rabiscada, bela obra de arte que inúmeros observadores se matariam ao tentar entender.

Compreendia também a dor que lhe causara ao o conhecer, e em dobro ao se deixar morrer.

Nikolai sorria, Fyodor suspirava, as paredes sucumbiam e a caneta sangrava.

Papéis queimados pela chama da dor, dor que já não fazia mais tanto sentido. O sangue pintado por trás de cada palavra vinha do coração, da alma aprisionada.

Dostoyevsky, uma besta enraivecida, se alimentava de tal sangue, enquanto tentava seu próprio erro redimir.

Erro.

Erro foi ter feito tal criatura sofrer em demasiado. Asas de penugens tão finas, tão macias e aveludadas, não nasceram para serem apreciadas com o toque da podre carne humana. Nenhum demônio como ele jamais deveria ter tido o privilégio divino de apreciar tal esplendor.

Ele não era sortudo, e sim um eterno pecador.

Toda manhã, enquanto Nikolai Dormia, sua alma rezava a Deus, em forma de uma canção, tão singela melodia, para que libertar-se aquele belo coração.

Eternal Freedom - Fyolai Onde histórias criam vida. Descubra agora