Capitulo III

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◌◌◌ Nath ◌◌◌

Depois de um banho quente e demorado, eu me sentia revigorada. Deixei que a água lavasse toda a confusão interna que havia se instalado, mas mesmo assim, o formigamento interno persistia. Saí do banheiro e vesti meu roupão felpudo, que sempre me servira de abrigo após momentos difíceis. Com a toalha ainda enrolada nos cabelos molhados, joguei-me na cama, tentando não pensar no acontecido algumas horas antes. Obviamente, isso apenas serviu para me fazer pensar ainda mais naquilo.

O que realmente me incomodava era a familiaridade que ele exalava e as sensações que aquele beijo despertara em mim. O contato dele havia acendido uma pequena chama no mais profundo do meu ser, uma chama que, por mais que eu tentasse, não conseguia apagar. Atribuí aquela chama ao fato de ele ter me beijado, mas estava mentindo para mim mesma. Não era apenas o desejo que havia causado aquilo; era algo mais profundo, mais antigo, algo primordial. Mesmo que sequer me tocasse, aquela chama teria acendido de qualquer forma. Com sua simples aproximação, ele havia despertado em mim uma parte que eu não sabia que existia, mas que inegavelmente estava lá.

Cerca de trinta minutos depois, com os cabelos já secos e meu pijama cinza com desenhos de pequenas corujas cor-de-rosa confortavelmente vestido, deito-me novamente com a intenção de dormir, o que não acontece com tanta facilidade quanto eu gostaria. Depois de mais de uma hora e meia olhando para o teto, perdida em pensamentos, finalmente pego no sono. No entanto, o que deveria ser um sono tranquilo e restaurador se transforma em outro pesadelo, um que eu já conhecia muito bem.

A primeira coisa a me atingir foram os gritos desesperados, ecoando pelo ar, penetrando meus ouvidos com uma intensidade assustadora. Em seguida, veio o cheiro de carne queimada, uma mistura sufocante que invadia minhas narinas e fazia meu estômago revirar. Lentamente, abri os olhos, enfrentando uma visão turva através de uma nuvem de fumaça e uma aura alaranjada que dançava ao meu redor, indicando a origem dos gritos e do cheiro pungente.

Levantei-me atordoada, tentando compreender a gravidade da situação. Com um grito sufocado, percebi que a cabana estava em chamas, o calor intenso agredindo minha pele e tornando o ar difícil de respirar. Crianças de várias idades corriam freneticamente de um lado para outro, suas silhuetas distorcidas pela luz ardente das chamas, buscando desesperadamente uma rota de fuga.

Ao longe, os gritos dos bombeiros ecoavam, misturando-se ao crepitar do fogo enquanto lutavam para controlar o incêndio. Eu me dei conta de que o inferno já havia consumido mais da metade do alojamento feminino daquele acampamento, onde eu passara as férias de verão quando tinha apenas doze anos.

Instintivamente, tentei correr em direção à saída, mas antes que pudesse alcançá-la, uma viga em chamas desabou com um estrondo ensurdecedor, golpeando minha cabeça com força. Um último vislumbre da luz alaranjada, e então mergulhei na escuridão, perdendo a consciência em meio ao caos e à tragédia.

Acordei arfando loucamente, lágrimas cobrindo meu rosto enquanto minha mente tentava processar o que acabara de experimentar. E então, percebi: não, aquilo não fora um pesadelo, mas sim uma lembrança dolorosa, um fragmento angustiante do meu passado.

Apertando o travesseiro contra o peito com força, permiti que as lembranças do maior trauma da minha vida inundassem minha mente sem reservas.

Algumas horas após desmaiar, recobrei a consciência em um hospital, sentindo vários pontos na cabeça, mas com o corpo intacto. Ao meu redor, as vozes murmuravam sobre o mistério de Nathalie Lewis, "A garota que ficou presa em um alojamento em chamas, mas não sofreu nenhuma queimadura".

Nos dias seguintes, fui submetida a uma sucessão interminável de interrogatórios. Eles queriam saber como eu sobrevivi, sendo a última a ser resgatada, e, principalmente, como era possível sair de um incêndio de tal magnitude sem uma única queimadura.

Vocês por acaso acham que minha filha é culpada? - Perguntou minha mãe, já cansada de me ver aos prantos toda vez que os investigadores me pediam para contar novamente o que exatamente havia acontecido naquela noite.

-Não, Sra. Lewis, nem poderia, já que, pelo que apontam as investigações, não havia nenhum material inflamável para começar o fogo. A não ser que sua filha entrasse em combustão espontânea- Respondeu o investigador sarcasticamente.

-Então por que é que vocês continuam fazendo a mesma pergunta? Não estão vendo que ela é apenas uma criança que acabou de passar por uma situação traumática? - Enfatizou ela com a voz alterada. -Gostaria de pedir que se retirem, por favor. Minha filha precisa descansar-

E com isso, os investigadores se retiraram.

Na manhã seguinte, os médicos me deram alta com a condição de que eu tomasse cuidado, pois o corte na cabeça era profundo. Eu aceitei as condições e fui para casa, feliz por estar viva. No entanto, ao chegar em casa, descobri a terrível extensão da tragédia: das 24 meninas, 9 haviam morrido queimadas no local do incêndio, outras 3 não resistiram aos ferimentos após serem resgatadas e, pelo menos, 7 ainda estavam internadas em estado grave, com queimaduras de terceiro grau. Além disso, 2 garotas estavam hospitalizadas devido à inalação de muita fumaça. Das 24 garotas, apenas 3 estavam em suas casas naquele momento. A realidade sombria da situação pesou sobre mim, deixando-me aturdida e emocionalmente abalada.


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