Com o passar do tempo, minha convivência com Thais se deteriorou, levando-me de volta à casa da minha avó. Embora tenha sido uma escolha complicada, reconheço que foi a melhor opção. Sentia-me deslocada, perdida em meus próprios pensamentos, numa constante batalha para não me deixar ser dominada. Desejava ardentemente encontrar um lugar que chamasse de lar, mas essa busca se mostrava desafiadora.
O retorno às aulas trouxe consigo o desafio de reencontrar a turma que tanto me prejudicara. Não era uma situação desejada, e imaginei que, com o tempo, as lembranças do passado se dissipariam. Contudo, sempre havia alguém para reavivar as lembranças dolorosas. Embora tentasse ignorar, isso minava meu ânimo. Nesse período, minha ansiedade atingiu níveis alarmantes, e foi quando conheci a autodestruição - uma tentativa de aliviar uma dor que parecia insuportável. Para muitos, pode parecer um pedido de atenção, mas só quem já enfrentou ou enfrenta essa dor compreende a angústia, a tristeza e a necessidade de encontrar um alívio.
No fundo, tudo o que buscamos é um abraço, não julgamentos. O peso de não pertencer a lugar algum me corroía, e a automutilação tornou-se um meio de aliviar essa carga. Nesse período sombrio, tive uma professora de língua portuguesa que se tornou meu anjo. Aline não me julgou, mas me apoiou, oferecendo um ombro amigo e mostrando que podia contar com ela. Suas palavras e compreensão foram lições valiosas.
Na escola, havia colegas, mas não uma amizade sólida. O ano não foi fácil. Fiquei um ano sem ver Alice, o que me entristecia profundamente. A saudade era um fardo difícil de carregar, e a distância ressaltou a importância dela em minha vida. A saudade, por vezes, despertava raiva em relação à minha genitora, mas com o tempo, percebi que a mágoa só me trazia prejuízos e amargura. Culpar os outros e a mim mesma só servia para me manter presa em um ciclo de sofrimento. Com o amadurecimento, compreendi que precisava entender os planos de Deus para mim, aceitando que a saudade não mata, mas fortalece a importância das pessoas em nossa jornada. O ano tumultuado transformou-me em uma pessoa diferente, com pensamentos e atitudes distintas, mas acima de tudo, aprendi que a saudade é um catalisador para valorizar aqueles que fazem parte da minha vida.
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Relatos de uma adolescente
Short StoryO medo de enfrentar novos desafios não pode te parar, e sim te dar força para ser superados.