Capítulo 8

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Naquela manhã, Jonathan saiu para sua corrida antes do horário habitual, sem seus cuidados habituais com a barba ou o banho. Tinha pressa mesmo que não acreditasse não ser capaz de fugir do olhar inquiridor do tio por muito mais tempo. Logo o visível mau humor que utilizou como cerco protetor na tarde passada, ruiria e Carlo o abordaria. Jonathan esperava apenas que fosse bem depois que encontrasse o equilíbrio perdido durante a missa. Não saberia como expôr a sensação de estar vivendo outra vida, sem que isso implicasse em estar, indiretamente insinuando que o tio mentia.

Afastando o pensamento inquietante, Jonathan rumou para a praia depois de cobrir-se com o capuz do agasalho para ocultar-se – como um real fugitivo – agradecendo o fato de as ruas estarem praticamente vazias. Encontrou apenas o velho Billy arrumando repolhos sobre uma bancada, Samuel, enfileirando varas de pesca na pequena vitrine e Grace varrendo a calçada em frente à lanchonete. Cumprimentou-os rapidamente, sem der-lhes chances de iniciar qualquer tipo de conversação antes de enveredar pela rua que o levaria à mata próxima a casa dos Greens e então para a praia deserta mais de trezentos metros além.

Quando chegou à faixa de areia e se preparava para alongar seus músculos, viu aquela que também tentou manter fora de seu cerco. Jonathan não esperava vê-la, talvez por isso seu coração tenha falhado uma batida no momento exato em que avistou a figura caminhando lentamente à beira mar. Como se não tivesse controle sobre seus passos, Jonathan caminhou rapidamente em direção a Faith, evidenciando que algo muito forte o ligava a ela.

Ao chegar mais perto, percebeu pelas roupas úmidas que ela nadara. Também notou o rabo de cavalo que se movia de um lado ao outro, como o pêndulo de um relógio antigo. Indo e vindo, indo e vindo. Fascinante!

– Bom dia! – cumprimentou, quando finalmente estava a um passo dela.

– Buon giorno, padre Jonathan – ela respondeu a sorrir. – Sua bênção.

Jonathan a abençoou, tomando o devido cuidado de não lhe estender a mão. Depois de retribuir o sorriso, perguntou brandamente:

– Aprendeu meu cumprimento não foi?

– Eu aprendo rápido – ela comentou. – E gosto do som. Acho bonita a forma como o senhor fala.

A formalidade lembrou-o de sua posição. Portanto recriminou-se pela ambiguidade mundana que conferiu à explicação simples da moça, julgando que ela quis dizer mais do que disse na verdade. Intrigado com o rumo que sua mente tomou e, aproveitando o lembrete de sua posição eclesiástica, prometeu para distrair-se:

– Então a cumprimentarei sempre dessa maneira... Buon giorno, Faith!

O sorriso da moça se alargou, antes que abaixasse a cabeça, satisfeita, e recomeçasse a andar. Após alguns minutos de silêncio, onde caminhou ao lado dela como se fosse o natural a ser feito, Jonathan a ouviu comentar:

– Não esperava ver o senhor aqui tão cedo.

Novamente a formalidade estalou na sua cabeça. Após um suspiro profundo, Jonathan retrucou:

– Também não esperava vê-la. É muito cedo... Deveria estar dormindo.

– Nesse horário geralmente estou mesmo – ela explicou. – Mas... Essa noite foi estranha. Não dormi direito.

Sem que pudesse evitar o padre viu a moça a rolar pela cama, insone. Talvez depois de despertar de um sono breve permeado de pesadelos tórridos e perturbadores, como por vezes acontecia com ele. Abanando a cabeça discretamente para afastar a imagem, ele disse:

Capisco!... Digo, eu entendo. É algo que queira dividir?

– Não! – Como se percebesse seu exagero, baixou a voz e atalhou: – Não foi nada, juro... Acho que comi demais antes de deitar.

Enigma - Segredos & Mentiras [DEGUSTAÇÃO]Onde histórias criam vida. Descubra agora