A I: A névoa de pesadelos

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O silêncio da floresta se tornava cada vez mais espesso, como se as árvores se curvassem sobre elas, sussurrando segredos que apenas o vento entendia. A atmosfera estava densa e inquietante, uma névoa rastejando pelo chão, engolindo cada pedaço de luz. Elas seguiram o mapa, confiantes, até que, de repente, uma barreira invisível as separa, empurrando-as para diferentes momentos, isolando-as novamente.

Naquele momento, cada uma das bruxas estava por conta própria. Não havia mais o conforto da presença das outras. O que restava era o frio da névoa e um vazio sombrio, que agora se infiltrava em suas mentes, trazendo à tona os medos mais profundos de cada uma.

Alice, bruxa de proteção, sempre soube que seu maior medo era falhar em proteger aqueles que amava. Agora, esse medo se tornou palpável. Ela se via em uma sala escura e silenciosa, à luz da lua filtrando-se por uma janela pequena e distante. E, ao seu lado, estava Jen, mas algo nela estava errado. Jen parecia se desfazer lentamente, como se a escuridão estivesse consumindo.

—  Jen! - Alice quis gritar, mas a voz saiu como um sussurro desesperado. Tentou agarrar a mão de Jen, mas sua mão atravessou o corpo dela, que começou a se desintegrar em névoa. As imagens de cada uma das outras irmãs começaram a aparecer ao redor, todas gritando por ajuda, rostos contorcidos de agonia, mas Alice era incapaz de tocá-las, de mantê-las.

O medo e o desespero tomavam conta dela, e as lágrimas escorriam pelo seu rosto

—  Eu sou inútil... incapaz de manter quem amo seguro.

Enquanto isso, Jen, no seu próprio pesadelo, vivia o medo de Alice. Ela estava em um espaço vazio, onde o frio era cortante e o eco de uma voz sussurrava que ela nunca seria suficiente. Alice estava ali ao longo, mas Jen a via sumindo lentamente, como se estivesse se distanciando cada vez mais. O desespero de não poder tocá-la a controlou, a corrosão por dentro, enquanto a sensação esmagadora de abandono a sufocava.

Ambas experimentamos, de maneira intensa e visceral, o peso das inseguranças e dos temores de Alice. E, embora independentes, era como se uma tentassem desesperadamente alcançar a outra, mesmo na escuridão do pesadelo.

Wanda estava em um vasto campo desolado, cercada por uma névoa densa. Natasha estava ao seu lado, mas havia algo que Wanda não conseguia entender. Natasha estava de costas para ela, e, a cada passo, parecia se afastar, como se não se importasse.

—  N-natasha! - A voz de Wanda cortando em um soluço, e o medo tomou conta dela. Wanda sempre terá um caminho profundo de ser esquecido, de ser abandonado. E agora, ali estava Natasha, caminhando em direção ao vazio, sem olhar para trás, sem olhar para ela.

Ao tentar seguir, Wanda foi puxada por uma força invisível que a mantinha no lugar, e então uma névoa ao seu redor começou a se transformar, revelando rostos familiares e vozes que a acusavam de não ser suficiente, de ser alguém que não merecia ser lembrada . O sentimento de abandono a consumir por completo.

Enquanto isso, Natasha experimentava o pesadelo de Wanda. Ela se via em um cenário onde uma multidão a cercava, cada um julgando-a sem piedade. Sentia-se sobrecarregado pela expectativa de não fracassar, especialmente aos olhos de Wanda. O peso das acusações a esmagava, e ela tentava se libertar, mas a multidão de vozes apenas aumentava, até que ela não conseguia mais distinguir o que era real e o que era o puro medo.

Ambas enfrentaram não apenas seus próprios temores, mas o temor uma da outra. Era uma conexão dolorosa, mais intensa, onde cada uma via um fragmento do que a outra guardava no coração.

Em outra parte, Rio, era arrastada pelo pesadelo de Agatha, vendo-se sozinha em um campo enevoado, onde encontrou o pequeno garoto ao lado de si mesma, ambos sem vida e se esvaindo junto a névoa persistente, preenchendo cada centímetro do espaço com o vazio absoluto. O medo de Agatha era a solidão misturada a perda, o medo de não ter ninguém ao seu lado. Agora, Rio sentiu o mesmo vazio e a ausência total de qualquer presença acolhedora. Vidal estava se sentido tão intensamente domada pelo que acreditava ser o medo da solidão, e isso a atormentava. Cada passo que dava parecia ecoar sem fim, como se estivesse se perdendo em uma escuridão sem retorno.

Enquanto isso, Agatha experimentava o pesadelo do Rio. Via-se cercada por sombras que a olhavam com desprezo e medo, como se ela fosse uma ameaça, como se fosse responsável pela morte e pela perda de tudo ao seu redor. E via a própria Agatha a culpando pelos escopos de seu trabalho, que ela sequer havia escolhido e mesmo assim havia burlado por ela. O pavor da incompreensão, da dor de Agatha e do isolamento que o próprio poder de Rio carregava, agora era vivenciado intensamente por Harkness, e ela começou a perceber o fardo que a Morte carregava todos os dias.

Lilia, a mais experiente entre elas, ficou suspensa no ar em uma névoa espessa, cercada pelos pesadelos de cada uma de suas irmãs. Elas tentavam escapar, mas a cada erro, a névoa tornava-se mais densa, o ar mais extinto de seus pulmões e os pesadelos mais intensos. Era como se estivesse no centro de uma teia invisível, sendo puxada para diferentes desafios, atormentada pelos temores das outras.

A cada tentativa de Lilia de se libertar, ela mergulhava mais fundo nos pesadelos. Sentia o abandono de Wanda, a dor de Jen, o temor de Natasha, a culpa de Alice, a solidão de Agatha e a incompreensão de Rio. E, com cada novo sentimento, sentindo sua força vital sendo drenada, como se estivesse a um passo da morte. Ela, anciã do grupo, estava quase se rendendo.

Presente em cada uma das outras bruxas, uma fagulha começou a brilhar. Alice, era eternamente conectada ao poder da proteção, sentindo algo profundo dentro de si, uma âncora de esperança quando em um vislumbre conseguiu olhar fundo nos olhos de Jen e não apenas enxergá-la mas também a todas as outras. Embora tivesse medo, sabia que seu propósito sempre fora proteger. Esse era seu poder, e sabia que tinha que usá-lo agora.

—  Vocês são meu coven. Eu não vou falhar com vocês - murmurou, mais para si mesma do que para as outras, mas sentindo a força em suas palavras.

Com uma força de vontade renovada, Alice se concentra e estende sua energia, recitando os encantamentos de proteção e força, criando um escudo protetor que se expande por meio da conexão do pacto de sangue. Ela canalizou a energia de proteção para cada uma, guiando-as de volta para a realidade, para o centro da névoa.

De volta ao ponto de partida, cada uma delas estava visivelmente exausta. Jen, ainda trêmula, abriu a mão de Alice com uma intensidade que conhecia mais do que qualquer palavra. Havia ali uma nova conexão, uma promessa silenciosa entre as duas.

Wanda, soluçando, abraçou Natasha, que, mesmo sem palavras, a segurou firme, passando-lhe uma segurança que dissipava o último resquício de dúvida e as mãos de ambas não tardaram em encontrar-se na barriga de Wanda, onde pela primeira vez sentiram o que acreditaram ser um chute da criança, fruto de seu amor.

Agatha encontrou o olhar do Rio, cheio de compreensão. Pela primeira vez, sentia que entendia um pouco mais sobre o peso que o Rio carregava e Rio, mesmo sem amplo conhecimento sobre os sentimentos mundanos, entendia o sofrimento que a outra carregava dentro de si e a cratera aberta e ao mesmo enterrada no âmago de Agatha. Ela estendeu a mão para o Harkness, que aceitou o toque com gratidão, as duas selaram um novo entendimento.

Lilia, entretanto, ainda estava suspensa no ar e ameaçou cair no meio do coven. Rio, ao ver sua condição apressou-se para segurá-la, buscando evitar que a anciã atravessase o chão com o impacto da queda fazendo imediatamente o corpo se chocar contra o seu. Era a Morte abraçando uma bruxa, o que imediatamente foi visto com maus olhos pelas demias:

—  Rio, isso é sua culpa! Você é a morte, não podia pegá-la, você não pode ajudar, você só sabe destruir! - acusou Jen, o medo ainda inflamado em sua voz criando uma tensão entre as demais que já estavam quase assumindo uma posição de ataque contra a bruxa verde original.

Antes que o pânico crescesse, Agatha se colocou entre as demais e Rio.

—  Vocês estão erradas! Rio não mata ninguém, ela auxilia nas passagens. Se estivesse aqui para levar Lilia, ela já teria feito isso.

Rio sentiu um calor inesperado pelo apoio de Agatha. Foi a primeira vez que alguém a defendeu de tal maneira, e o rompimento lhe trouxe uma nova força.

Alice, canalizando o que restava de sua energia, estendeu a proteção para Lilia. Um brilho de cor alaranjada suave emanou dela, e, aos poucos, a respiração de Lilia se estabilizou, seus olhos se abrindo lentamente.

—  Estamos onde deveríamos estar. Vidal não está aqui para me levar e nem a nenhuma de vocês e talvez mais n... - Lilia sussurrou, antes de começar a ressonar tranquilamente.

Confusas, as bruxas se deram conta de que o mapa não era uma mera orientação para a trilha — ele era a própria trilha, um guia em meio a seus próprios medos. As sombras dissiparam-se, mas o vínculo entre elas, agora renovado e fortalecido, permaneceria.

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