Capítulo 2: Nevermind

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Sexta feira, seis horas da manhã, e estou novamente correndo pela orla. Dessa vez não corria rápido, seguia um ritmo calmo como meu coração estava desde a tarde anterior.

Enquanto corria, olhava para a paisagem. Algumas pessoas já estavam na rua, o senhor da banca de jornal já estava em seu posto, a senhora que vendia café no ponto de ônibus já estava atendendo a seu primeiro cliente e havia um senhor que lutava para lidar com tantas sacolas, e sem perceber, corri em sua direção.

- Bom dia, quer uma mãozinha? – eu sorria de forma simples, fazendo menção em pegar as sacolas pesadas em suas mãos.

- Bom dia, querida, olha que eu vou aceitar. – disse com um humor típico daquele povo tão hospitaleiro.

- Passe aqui as sacolas então. – com um pouco de dificuldade, ele me estendeu as sacolas. Começamos a andar lentamente, ele me contava que estava indo preparar o café da sua neta. – Porque não ajuda o senhor quando vai ao mercado? – perguntei, acredito que não fazia bem para ele caminhar com tanto peso.

- Ela até tenta, mas sabe o que é. – ele dá uma risada, a risada de uma criança que acabou de aprontar. O seu sorriso chegava aos olhos azuis, ele sorria de forma verdadeira. Em seu rosto haviam rugas devido a sua idade avançada. E uma coisa que sempre apreciei foram as rugas, porque isso significava que quanto mais rugas remos em nossos rostos, mais histórias temos a contar. – Eu saio bem cedinho, antes de ela acordar, e corro para o mercado. Quando volto ela ainda está dormindo, mas quando acorda e percebe o que eu fiz, eu levo um sermão dos bons. - Não me contenho e solto uma risada também.

Continuamos a caminhar, passamos em frente ao hotel que estou hospedada e andamos mais alguns minutos. Descobri que seu nome era Francisco, mas gostava que o chamassem de Chico. Ele me contou de suas aventuras escondidas da neta, que o tentava manter na linha, mas ele era teimoso e fazia as coisas do mesmo jeito.

- Seu Chico, é perigoso o senhor fazer essas coisas. – tentei avisar para ele, mas a verdade era que se fosse eu no lugar de seu Chico, eu faria coisas piores.

- Tu falou igualzinho à minha neta. – Ele disse rindo. – eu gosto de sair, andar, dar uma prosa com os amigos da praça. Eu sou igual passarinho, menina, sou pra ficar livre voando por ai, não preso dentro de uma gaiola. – Disse seu Chico por fim. Chegamos na frente de uma casa simples dos anos 50, ela era pintada de tons alegres, seu Chico tirou de seu bolso direito uma chave, e com as mãos tremulas escolheu uma e encaixou no fecho do portão, o abrindo. Deixei em suas mãos as sacolas e me despedi.

Chegando ao hotel fui direto ao banheiro, tomar um banho longo e me preparar para mais um dia de trabalho.

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- Fernando está atrás de você. – disse Ana ao me ver passando pelas portas do museu.

- E o que ele quer dessa vez? – conforme andava, Ana ia atrás de mim enquanto olhava seu tablet.

- Ele não disse, só falou para você ir para a sala dele assim que chegasse. – parei ao chegar na escada que levava ao segundo andar.

- então vamos combinar o seguinte. – disse me virando para ela, fazendo com que ela também parasse de andar e me olhasse. – você não me viu e nem sabe se virei hoje. – Ana apenas assentiu e seguiu em direção a algumas mercadorias que estavam sendo descarregadas.

Corri para minha sala antes que mais alguém me visse ali. Com sorte, teria mais alguns minutos de paz antes de ter de lidar com o insuportável do Fernando. Tranquei a porta atrás de mim, e sentei em minha mesa. Abri meu notebook e fui ler alguns contratos que teriam de estar assinados até a semana seguinte, perdi pouco mais de duas horas entre ler, assinar e rejeitar alguns.

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