12. | Ignis

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Eu amo o cheiro da gasolinaEu acendo o fósforo para saborear o calorEu sempre gostei de brincar com fogo

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Eu amo o cheiro da gasolina
Eu acendo o fósforo para saborear o calor
Eu sempre gostei de brincar com fogo.

- Play With Fire - Sam Tinessz

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Eu não sei o que esperava sentir ao voltar para o internato, mas não era isso. O medo, a raiva, a sensação de estar sendo engolida por algo que nunca tinha me deixado de verdade... tudo isso me sufocava, e não era mais uma surpresa. Já sabia que aquele lugar teria esse efeito sobre mim. As memórias eram como feridas que não cicatrizavam, e agora, com o prédio à minha frente, elas estavam abertas de novo, sangrando como nunca.

O carro parou diante da entrada imponente do colégio. A mesma fachada de pedra fria, as janelas altas que pareciam nos observar. Blake estava ao meu lado, em silêncio, mas eu podia sentir o peso da presença dele. Ele sabia o que isso significava para mim. Para todos nós. Amaya dirigia, com os olhos fixos na estrada, mas o peso em seus ombros era visível. Runa, quieta, olhava pela janela, absorta em seus pensamentos. Ela não precisava falar. Nenhum de nós precisava.

- Vamos queimar esse inferno de uma vez - Blake disse baixinho, o amargo de suas palavras são notáveis.

Eu não respondi. O que poderia dizer? As palavras já estavam ditas entre nós há muito tempo. Estávamos ali por uma razão, e nada poderia mudar isso. Não era só vingança. Era algo mais visceral, algo que não dava mais para esconder. Não dava mais para fugir.

Nós três já estudamos lá até o ensino acabar e decidirem chutar-nos porta fora, e nesses anos fomos vítimas de adultos doentios, sem nem um pingo de carinho ou arrependimento ao ver lágrimas escorrerem.

O internato estava silencioso à noite, com as portas fechadas e as luzes apagadas. Mas eu sabia que não estava vazio. Dentro de mim, aquelas paredes ainda estavam cheias de vozes, de gritos, de castigos e lágrimas. Tudo que vivi ali estava impregnado no ar, naquelas pedras. As noites em que me deitei no colchão imundo e fechei os olhos, esperando que o dia seguinte não fosse mais cruel do que o anterior. Mas sempre era. As regras rígidas, as punições que pareciam não ter fim, as humilhações... Cada detalhe ainda estava fresco na minha memória, e me dava um nó na garganta.

A cada dia, a cada noite ali, eu aprendia a odiar mais meu pai, na verdade, todos daquela cidade. Sempre fui boa filha e aluna, nunca dei trabalho a ninguém, mas no meu primeiro passo em falso, me jogaram para longe, o suficiente por tempo o suficiente para esquecerem da minha existência.

Eu não havia feito nada de errado. Eu só decidi viver em vez de sobreviver.

- E agora? - Amaya perguntou assim que estacionou, a voz tensa.

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