10 O CAVALEIRO-parte 1

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- Muito bem, senhorita Katte, pode subir na carruagem.

- Tudo bem, já estou indo.

Ao entrarmos na carruagem, Rane olhou atentamente em meus olhos, como se estivesse me testando, tentando encontrar alguma brecha. Mais uma vez, não consegui manter contato visual. Sinto-me incomodada por ele não parar de me encarar, mas farei de tudo para não agir de forma estranha, como às vezes faço. Depois de tanto tempo de treino, não posso cometer os mesmos erros do passado.

- Então... por que está me encarando tanto? Acabará fazendo um buraco no meu rosto. - sorrio.

- Não gostaria de explicar, mas meus motivos para ir com você não são tão superficiais quanto "puro orgulho". O príncipe não é apenas meu superior, mas também... Olha, não me importo se acha que é insolência da minha parte, mas ele é o mais próximo que tenho de um amigo e um irmão mais novo.

- E por que está contando isso justamente para mim? Não sou apenas alguém que veio de fora há pouco tempo?

- Eu não sei, apenas senti que deveria falar isso para você. Se não se importar, irei contar como tudo começou.

- Por favor, fique à vontade. Tolo é aquele que não escuta as pessoas à sua volta.

Muitas décadas atrás, eu era uma criança feliz. Só eu e minha mãe. Éramos muito pobres, mas não nos faltava amor. Nossa casa era uma casinha de madeira antiga, pequena, mas confortável e aconchegante. Minha mãe fazia de tudo para que eu crescesse forte e saudável.

Nós brincávamos todos os dias, como se nunca tivéssemos sido tão felizes antes. Ela me amava, e eu a amava muito. Em noites frias e tempestuosas, ela me colocava para dormir em sua cama. Quando eu me machucava, ela beijava o ferimento e fazia um curativo... Eu faria de tudo por ela. Se pudesse, daria o mundo para minha mãe. De todas as pessoas deste mundo, ela era a única que me amava e se importava comigo. Meu pai, por outro lado, era um homem ruim.

Ele fugiu quando eu ainda era um bebê. Tudo o que sei sobre ele é o que minha mãe me contava. Ele acumulava muitas dívidas de apostas e, um dia, simplesmente sumiu. Nunca mais voltou. Minha mãe acreditava que ele provavelmente foi pego para pagar o que devia, mas nunca descobrimos a verdade. Ainda assim, por mais que sua ausência causasse dificuldades, nós sempre encontrávamos um jeito de seguir em frente.

Certa vez, no mercado, fomos abordados por alguns homens. Minha mãe tinha uma beleza exuberante, e eles sabiam disso. Ela recusou acompanhá-los, mas a insistência deles foi assustadora. Lógico que tentei impedi-los. Pus-me na frente dela, olhei nos olhos daqueles homens e disse que só a levariam se me matassem primeiro. Eles riram de mim, zombando da minha ingenuidade e fragilidade. Foi então que um amigo da minha mãe apareceu e os afugentou. Só de pensar no quão fraco eu era, em como não pude fazer nada para protegê-la, senti uma frustração indescritível.

A partir daí, passei a "treinar" todos os dias. Fazia abdominais na frente de casa como se isso fosse mudar alguma coisa. Pegava objetos pesados e sempre aumentava a carga. Eu não tinha ideia do que estava fazendo. Só queria crescer rápido e ser útil para a única pessoa importante na minha vida.

Mas, infelizmente, meus esforços duraram pouco.

Estávamos brincando na porta de casa em um dia calmo e bonito. O céu era azul, com nuvens branquinhas. Era uma manhã agradável, enquanto os passarinhos cantavam melodias alegres. Foi quando "ele" apareceu.

O rosto daquele homem nunca saiu da minha cabeça, mesmo depois de tantos anos. Ele havia sumido antes de eu nascer e agora voltava como se buscasse algo. Não o reconheci de imediato, mas minha mãe olhou bem em seus olhos e pronunciou seu nome: "Aron". Ele era alto, magro e se curvava como se estivesse com medo. Não sei o que minha mãe viu nele... Ele estava acompanhado de três homens, bem maiores que ele. Enquanto me olhava com desprezo, conversava com minha mãe. Não consegui ouvir o que diziam. Ela me colocou para dentro de casa, provavelmente para que eu não escutasse aquela conversa absurda. De repente, ouvi os gritos da minha mãe e um estrondo. Quando empurrei a porta, vi minha mãe jogada no chão.

Foi uma cena horrível. Corri até ela, tentando ajudá-la, mas aqueles homens me puxaram e tentaram me afastar dela. Eu gritava o mais alto que podia, chamando por minha mãe que estava caída, sem forças para se mover... Aquela cena marcou minha memória para sempre. Ela recobrava os sentidos aos poucos e tentava se levantar. Ao me ver desesperado pegou um vaso antigo e o jogou contra um dos homens. Em resposta, ele a empurrou com força contra a mesa.

Com apenas alguns anos de idade, vi a pior cena possível.

Minha mãe estava morta na minha frente. Seu sangue se espalhava pelo chão sem parar. Aquele homem - meu pai - sequer conseguia olhar para ela. Apenas desviava o olhar, como um rato covarde. Naquele momento, meu mundo desmoronou.

A partir daí, não consegui mais pensar em nada. Minha mente ficou em branco, como uma casca vazia. Algumas horas antes, eu estava brincando com minha mãe na rua... Agora, estava sozinho, desolado, com ela morta diante de mim. Não conseguia gritar, nem chorar. Até hoje, não posso sequer explicar o que senti naquela época. Eu falhei. Não pude proteger a mulher que mais amava, a pessoa mais preciosa da minha vida. E então... eu parei de resistir.

- Eu... Eu sinto muito mesmo por você ter passado por tudo isso. Uma criança jamais deveria viver algo assim...

- Não sinta. Você não teve nada a ver com isso. Depois de tudo, eu me tornei mais forte.

Eles me levaram e me jogaram dentro de uma carroça cheia de outras crianças. Todas tinham seus próprios traumas e desilusões. Seus rostos sujos e magros mostravam o quanto haviam sofrido antes de chegar ali. Algumas tentavam conversar para não se sentirem tão sozinhas. Outras choravam o máximo que podiam. Duas estavam na mesma situação que eu: olhando para o nada, sem expressar nenhuma emoção.

Quando estávamos chegando ao local da venda, um grupo de homens parou a carroça e começou a nos atacar. Os responsáveis tentaram revidar, mas não tiveram chance. Eram apenas três contra cinco. Em poucos minutos, estavam mortos. Os novos atacantes começaram a saquear a carroça. Quando nos viram, nos mandaram descer e formar uma fila. Eram mercenários, mas diferentes da maioria. Roubavam dos ricos para ajudar os pobres. Eles decidiram nos acolher. Naquele momento, eu não fazia ideia do que estava por vir.

Fomos treinados pelos mercenários. Todos os dias, sem falta. Precisávamos aprender a nos defender, tanto de bandidos quanto da própria guarda real. Durante anos, vivemos assim, fugindo de lugar em lugar. Mas um dia, tudo mudou para mim...

CONTINUA...

Katte and WolffOnde histórias criam vida. Descubra agora