Voltaram na quarta-feira á tarde, e encontraram a casa no mais absoluto caos. Os eletricistas reviravam a ala leste; Lucy olhou com curiosidade para os rolos de fio espalhados pelo chão. não podia negar que Debora cumpria sua parte no trato... coisa que ela não estava fazendo.
- Vou trocar de roupa antes de comer - murmurou, exausta depois do longo vôo. - devo demorar cerca de meia hora.
- Não se apresse. Preciso cuidar de outros assuntos.
Ela hesitou, segurando a porta da biblioteca enquanto observava Debora sentar-se à velha escrivaninha e ler com atenção alguns papéis. Desde o início soubera que aquele relacionamento seria muito difícil, mas não pensara que pudesse tornar-se pior do que imaginara.
Subiu a escada devagar. Nada podia ser dito ou feito. Talvez a volta de Bruninho as unisse outra vez. Ao menos era uma esperança...
Um banho revigorante deu-lhe mais disposição. Uma consulta ao relógio mostrou que já passava das dez da noite. Talvez um pouco de blush fizesse seu rosto ficar mais atraente. Sentou-se a penteadeira, examinando o próprio reflexo. Sim, naquela noite precisaria de um pouco de maquiagem. passou com suavidade o pincel no rosto, disfarçando a tensão.
- O que acha, Sorte? - perguntou ao gato. - Será que melhorei? - Uma batida à porta fez com que ela virasse a cabeça. Só podia ser Debora. - Entre.
Ela já trocara de roupa. Agora vestia jeans e camiseta branca. Lucy sentiu o coração dispara ao vê-la.
- Sinto muito incomodá-la. - O tom frio e distante deixou-a menos apreensiva.
- Tudo bem. Que você quer?
- Li o relatório final da herança da Leda... aqui está. - estendeu-lhe um maço de folhas. - Há somente uma coisa que não está clara. Parece que esqueceram de considerar o dinheiro da pensão que ela lhe pagava.
Lucy sorriu.
- É evidente. Leda nunca me pagou nada - explicou satisfeita.
Debora franziu as sobrancelhas.
- Não pagou? Nada?
- Não. Eu ainda tinha um pouco de dinheiro do seguro dos meus pais. E logo comecei a trabalhar. Não ganhava muito, mas era o bastante.
Debora sentou-se na cama, encarando-a com perplexidade.
- Mas... você tinha o direito de contar com a pensão dela. Por que não a recebeu?
- Porque não quis. Podia viver sem isso. Preferi ser independente, para que ninguém me acusasse de explorar sua prima. - Sua voz era muito amarga. - Não que isso faça alguma diferença. Você parece determinada a pensar o pior de mim.
Os olhos cor de mel encaravam-na com ceticismo.
- Por que não me contou isso antes?
- Você nunca perguntou. Limitou-se a tirar suas conclusões. Concluiu também que eu não era capaz de trabalhar com festas. Quando descobriu que se enganara, fez de tudo o que pôde para atrapalhar.
Debora pareceu muito surpresa.
- Engano seu. Nunca fiz nenhuma objeção quanto a seu trabalho. Mas devo confessar que não esperava que você fosse tão eficiente. Na verdade, eu ficaria muito feliz se continuasse com as festas.
O olhar de Lucy era desconfiado.
-Então quem boicotou meu trabalho? Quem mexeu os pauzinhos na prefeitura para que revogassem minha licença?
- Não fui eu. Não conheço pessoas na prefeitura, exceto... - Franzindo as sobrancelhas, ela sorriu cinicamente. - exceto o vizinho da Julia. Que aliás é muito amigo do Roberto.
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A Proposta
RomanceLucy se apaixonara por Debora Souto-Maior à primeira vista. Quando soube que ela era comprometida, casou-se com outra mulher, mesmo sem amá-la, apenas para esquecer Debora. Apesar da infidelidade da esposa, Lucy manteve-se fiel, ainda que em suas...
