“— O que você sente? – me perguntou, suave, quase um sussurro, enquanto seus olhos escuros examinavam com minúcia o quadro diante de nós – uma tempestade de cores e formas brutas entre vermelho e cinza.
— Sinto o vibrar doloroso dos ossos em cada pincelada. – confessei, com a voz carregada de um lamento profundo. Cada traço e cada linha pulsava uma dor que eu mal conseguia descrever com exatidão, uma sensação física dolorosa demais que reverberava através do meu corpo e da tela.
— Impressionante! – ela sorriu pequeno, ainda observando o quadro com interesse.
— É uma dor tão profunda e corrosiva, que sinto meu peito encolher de pura aflição. Não há nada de impressionante nisso! – respondi, trêmula, retirando a mão do quadro rapidamente, como se o simples ato de tocá-lo fosse me arrebentar de dentro pra fora se o contato durasse por mais tempo.
— Acredito que pior do que sentir, seja não sentir! A dor nos faz humanos, Helena. – Adélia garantiu. — A experiência vinda da dor se torna um meio de conexão e compreensão, entende? Permite que outros se vejam refletidos nela e encontrem algum consolo, ou até mesmo força para lidar com suas próprias experiências.
— Tenho a impressão que se você estivesse no meu lugar, essa maldição não teria durado mais do que alguns instantes. – brinquei, tentando dispersar a tensão que não largava meus ombros.
— Você me dá muito crédito! – ela respondeu, divertida e modesta.
— Acho que ainda não tenho a habilidade de ver o lado bom disso tudo. — respondi cheia de sarcasmo, mas com uma honestidade brutal. — Às vezes, a dor parece tão... irreversível. Mas você, Adélia, a faz parecer só um contratempo indesejável.
Ela olhou para mim, seus lábios grossos se expandindo numa feição meio presunçosa, como se ela tivesse certeza do que causava toda vez que sorria daquele jeito.“
Depois de compartilhar meu passado com Adélia, nossa relação havia ganhado outros tons. Nossa cumplicidade se intensificara, ainda mais. Havíamos conversado sobre sua história, e como a intolerância alheia lhe afetava, como ela havia se reinventado apesar de tantas adversidades. O jeito como ela falava de suas lutas me fez ter a certeza de que, ao contrário de mim, ela havia encontrado formas de superar facilmente.
Era impressionante como Adélia parecia ler minha alma. Em seus olhos não havia exigências nem expectativas, apenas a tranquilidade de quem entendia bem que o tempo e amadurecimento não era o mesmo para todos. A admiração que eu já sentia por aquela mulher, só crescia. Eu podia ter anos a sua frente, mas ela parecia ter muito mais experiência.
A obstinação para entender melhor a complexidade da minha situação, fez com que Adélia me submetesse à alguns testes. Não podia negar, nem sempre eram agradáveis, mas pareciam estar surtindo algum efeito. Eu conseguia passar, com muito mais desenvoltura do que antes, pelas memórias que eu – agora – chamava de baixo impacto. A partilha forçada, antes tão dolorosa quanto um choque de alta voltagem, nestes casos, era tolerável e suas consequências passageiras. Eu só precisava querer senti-las, acolhe-las, para que logo virassem um eco distante, como um tapa ardido que deixava a pele apenas formigando.
As memórias de Adélia se encaixavam nessa categoria, razão pela qual nossas interações físicas tinham se tornado mais frequentes para o meu prazer pessoal. Apesar disso, ela era extremamente cuidadosa ao me tocar, sempre com delicadeza e cautela. Ao menor sinal de desconforto da minha parte, ela se afastava me olhando com doçura. Sua paciência duelava bravamente com a falta da minha, que enervava meu sangue com facilidade, me deixando frustada quando não conseguia lidar com os efeitos de alguma lembrança. Pouquíssimas foram as vezes que houveram reflexos das lembranças dolorosas de Adélia. O peso da minha própria história e a dor que eu carregava, pareciam cada vez mais leves ao lado dela. A resiliência de Adélia era inspiradora, e eu não conseguia me manter indiferente.
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Artem
RomanceEva é uma curadora de arte de um importante museu. Dona de um passado sombrio, foi inevitável que criasse uma armadura capaz de afastar todos ao seu redor. No entanto, o destino parecia ter pretensões próprias, ao cruzar seu caminho com Adélia Zwane...
