Eu nunca quis te contar isso, mas uma semana depois que você foi embora eu fui na lavanderia pra chorar. Peguei uma camiseta gasta bege, de um seriado antigo que eu nunca tinha ouvido falar, que era da sua irmã mais velha e que você usava o tempo todo, e a encarei em minhas mãos, me debatendo se eu deveria ou não a jogar fora. eu peguei aquela peça de roupa e comecei a chorar. Não importava que eu limpasse os rastros salgados em meu rosto, eles insistentemente retornavam.
eu sentei nos ladrilhos brancos com aquele pedaço de pano que você esqueceu comigo. encarei a parede de lajotas azuis até que a visão se tornasse abstrata, ambígua e embaçada.
Eu fazia isso o tempo todo quando estava ao ar livre, e tudo parecia escuro e depois claro. eu não sabia porquê estava chorando. se era porque me sentia sozinha, tão sozinha, e não havia ser humano no mundo capaz de me entender além de você, ou se eu estava chorando porque era tola. porque tolos choravam quando não havia nada de errado, porque você pegou um chocolate da geladeira que minha mãe me deu, ou porque você esqueceu de me mandar mensagem quando chegou ao seu belo e encantador destino.
eu queria ser um destino encantador
eu queria ser uma bela visão
eu não queria ser uma mulher adulta chorando no chão da lavanderia porque ninguém se lembrou do meu aniversário. porque caminhou para longe tão casualmente, como se não segurasse meu mundo nas mãos. porque ninguém nunca tinha me olhado com aquela admiração. porque talvez eu fosse um fracasso que tentava escalar o poço escuro da recém descoberta vida adulta. da vida num geral.
Mas parece que foi o que me restou depois de ouvir a dolorosa palavra deixar seus lábios: "adeus". Eu ri com amargura porque você me tratou como um animalzinho de rua, perdido e assustado. Houve um carinho frio nos meus cabelos e um sussurro de pena mal contida.
"Segue sua vida" como? Se ela agora se encontrava na mesa do café, pedindo um frappé para um outro alguém. Quão egoísta você poderia ser em pegar minhas mãos, enrolar os braços em volta do meu pescoço e dizer palavras como essas. É quase como se a indiferença no seu rosto me envenenasse de forma penosa e é quase como se você gostasse de ver isso.
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Bilhetes Esquecidos
Poesiabilhetes que escrevi nas minhas noites acordada, destinados a ninguém em especial
