Scaramouche é um cara de extrema má sorte, que enfrenta uma batalha constante para conseguir um emprego em um mundo implacável. Quando, finalmente, surge a oportunidade de trabalhar com os membros de uma das bandas mais icônicas do Japão, ele se vê...
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
Kazuha o encarou mais um pouco, os cílios dele baixos, a pele clara contrastando com o preto da camisa fina, até suas veias estavam fáceis de ver. Eles já estavam quietos há algum tempo, e Kazuha nem tinha prestado atenção em nada naquele livro idiota.
— O que você acha da gente ser amigo? — falou de repente, tomando coragem.
Kuni ergueu os olhos. Ainda não o encarou de verdade, mas pareceu surpreso.
— Por quê?
— Ué… por que não?
— Você tem tantos outros amigos. Por que ia querer a amizade de alguém como eu?
Kazuha abriu um sorriso leve, gentil. — Porque amigos nunca são demais.
Kuni pareceu pensar sobre isso. Seus dedos pararam de mexer no livro. Ele ficou quieto por longos segundos. Então fechou o livro devagar e murmurou:
— Tá bom.
Kazuha parecia brilhar como o sol. — Sério?
— Sim, mas agora eu tenho que ir.
Kuni se levantou com calma, mas antes que conseguisse alcançar a porta, Kazuha praticamente pulou do sofá.
— Espera aí — disse ele, um pouco mais alto do que gostaria. — Você não comeu nada. Só ficou bebendo água.
Kuni parou, meio sem jeito, os dedos ainda segurando a alça da mochila.
— como em casa, tá tudo bem.
— Mas você veio até aqui… a gente ficou lendo por horas. — Kazuha franziu a testa, com um tom mais calmo. — deixa, pelo menos, eu pedir alguma coisa pra gente comer.
Kuni hesitou. Seu olhar caiu para o chão, depois voltou para a mão de Kazuha, que já segurava o celular.
— Qualquer coisa leve, então… — murmurou. — Nada muito gorduroso.
Kazuha sorriu, sentando-se de novo no chão e abrindo o aplicativo no celular.
— Certo. Gyoza no vapor serve? Ou tofu grelhado? Tem um restaurante aqui perto que é ótimo.
Kuni voltou devagar para o mesmo lugar onde estava sentado antes. Ele olhou para a janela por um instante, os olhos cansados mas atentos à luz que mudava de cor. O sol estava quase se escondendo atrás dos telhados, tingindo o céu com aquele tom alaranjado.
— Gyoza no vapor parece bom...
Kazuha confirmou o pedido e largou o celular sobre a mesinha baixa. O silêncio entre os dois não era exatamente desconfortável, mas tinha um ar estranho.
— Obrigado por ter vindo — disse Kazuha de repente, com a voz baixa.
Kuni olhou para ele de lado, quase sem mover a cabeça.
— Não foi nada demais. Era minha obrigação não deixar o trabalho todo nas suas costas.
— Eu sei que sair não deve ser fácil pra você. Eu fico muito feliz por você ter vindo.
Kuni deu de ombros, mas seus dedos apertaram levemente a gola de sua camisa.
— Eu queria saber como era a sua casa — falou, quase num sussurro. — me perguntei como alguém como você viveria... sei que é estranho ouvir isso.
Kazuha se inclinou um pouco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— E o que achou?
Kuni olhou ao redor de novo.
— Combina com você
Kazuha sorriu.
O tempo passou devagar até a comida chegar. Quando Kazuha trouxe a bandeja para a sala, os dois se sentaram lado a lado, com o som do vento do lado de fora preenchendo o espaço entre uma mordida e outra. Kuni comia devagar, com muito cuidado, mastigava bastante.
— Tá gostoso? — Kazuha perguntou.
— sim. muito obrigado pela refeição.
Kazuha reparou no modo como Kuni levava o guardanapo aos lábios, como ele sempre usava a mão esquerda para esconder a boca ao mastigar, como se estivesse constantemente envergonhado.
Depois que terminaram, Kazuha recolheu as embalagens com calma e, ao voltar, encontrou Kuni observando um dos vários papéis colados na parede.
— Foi você que escreveu isso? — ele perguntou.
— Foi. — Kazuha sentou-se novamente. — Gosta de poesia? eu costumava escrever bastante antes de ir morar fora.
Kuni assentiu levemente.
— parece interessante, a ideia de colocar tantos significados em poucas palavras. É tipo um resumo, só que mais complexo. É bonito.
— Igual você — Kazuha comentou sem pensar, mas logo ficou corado. — Digo… você não fala muito, mas parece ser... complexo?
Kuni o olhou nos olhos pela primeira vez. Os olhos de Kuni eram escuros e fundos, como se guardassem muitas noites mal dormidas.
— preciso ir pra casa.
— É… você tá tentando ir embora faz um tempo.
— Eu não tô acostumado com isso — Kuni falou depois de um tempo.
— Com o quê?
— com a ideia de ser amigo de alguém. — Ele abaixou os olhos. — então não sei como agir ou o que falar.
Kazuha sentiu o estômago apertar.
— Bom, eu percebi. Mas não precisa pensar muito nisso, a gente vai se conhecer mais e já já você se abre.
Kuni ficou quieto. Mas seu corpo relaxou um pouco mais.
Já estava escuro quando ele realmente conseguiu ir embora. Kazuha o acompanhou até a porta, e antes que Kuni saísse, Kazuha segurou seu pulso por um segundo.
— Podemos repetir isso outro dia?
Kuni não respondeu de imediato. Depois, assentiu com a cabeça.
— já vamos fazer o trabalho de qualquer jeito.
— Não, eu tô falando mesmo depois do trabalho acabar...
Kuni levantou os olhos, sentindo aqueles dedos quentes enrolados em seu pulso. Seu coração estava acelerado, e Kazuha provavelmente tinha notado.
— vou pensar.
E então, foi embora com passos lentos, sumindo na rua de postes amarelados. Kazuha ficou ali, parado por alguns segundos, olhando a porta ainda aberta, com o coração batendo rápido e um sentimento estranho e novo se espalhando pelo peito.
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.