Ep 16

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A brisa da noite estava leve quando S/N e Aidan chegaram ao estacionamento. Ele se despediu com um aceno discreto e aquele meio sorriso que, mesmo simples, a deixava aquecida por dentro. Quando entrou no carro, ainda se pegava pensando na cena com Hannah mais cedo, não pelo ciúme, talvez, mas pela forma firme e respeitosa como Aidan tinha lidado. Era impossível não admirá-lo por isso.

Na manhã seguinte, a rotina recomeçou como sempre: café apressado, relatórios que pareciam se multiplicar e o vai e vem apressado dos colegas no escritório. S/N tentava manter o foco, mas a mente, vez ou outra, se perdia nos detalhes. O jeito como Aidan ajeitava a gravata, a concentração dele diante das planilhas, o levantar rápido dos olhos quando percebia que alguém o observava. Ela suspirava, e logo voltava à tela do computador, como se nada tivesse acontecido.

No horário de almoço, decidiu mudar um pouco. Em vez do refeitório, atravessou a rua até uma cafeteria charmosa, sempre cheia de estudantes e profissionais dali da região. Assim que entrou, reconheceu uma risada familiar.

— Millie! — chamou, animada.

A enfermeira girou nos calcanhares, surpresa, e abriu um sorriso enorme.
— S/N! Que coincidência boa! — disse, guardando o celular às pressas. — Eu tava mesmo pensando em você esses dias.

Sentaram-se perto da janela, e a conversa fluiu fácil, como sempre. S/N contou um pouco da correria no escritório, omitindo os detalhes que preferia guardar só pra si.

— E você? Como tá no hospital? — perguntou, apoiando o queixo na mão.

Millie suspirou, rindo em seguida.
— Cansativo, mas eu amo, sabe? É aquela loucura boa. Às vezes parece que o mundo inteiro desaba em cima da gente, mas... no fim, você lembra por que escolheu isso.

S/N sorriu. Ela adorava ouvir Millie falar do trabalho, havia sempre uma paixão nos olhos dela, mesmo quando reclamava.

Mas então, Millie se inclinou para frente, como quem estava prestes a soltar uma fofoca.
— Adivinha quem apareceu ontem, todo ralado, com cara de teimoso?

— Quem? — S/N arqueou as sobrancelhas, curiosa.

— O Finn. — disse, com uma risada curta. — O motoboy que vive entregando pedidos no hospital.

— Ah, ele! — S/N lembrou vagamente. — E o que aconteceu?

— Caiu da moto, claro. — Millie revirou os olhos, mas os lábios sorriram sozinhos. — Entrou falando que não precisava de atendimento. Mas, quando comecei a limpar os machucados... ficou quietinho, feito um menino obediente.

S/N riu, mexendo distraída no canudo do suco.
— Parece bem... teimoso.

— Muito. — Millie confirmou, mas havia um brilho diferente nos olhos. — Só que... ele é genuíno. Enquanto eu cuidava dele, começou a contar histórias das corridas, de como ajuda a família, da vida simples dele... e, sei lá. Eu fiquei ouvindo e pensando que ele é tão diferente de tudo que eu já conheci.

S/N inclinou a cabeça, estudando a expressão da amiga.
— Diferente como?

Millie hesitou, respirou fundo e apoiou as mãos na mesa.
— Eu já me machuquei muito, S/N. Relacionamentos que... me deixaram marcada. Eu sempre me entreguei mais do que recebi, entende? E agora... não sei se quero me permitir de novo.

A voz dela saiu num sussurro quase frágil, e S/N sentiu a confissão pesar entre elas.
— Entendo você. — disse com sinceridade. — Eu não tive tantos relacionamentos assim, só alguns na escola e na faculdade de contabilidade. Mas acho que, no fundo, eu sempre tive medo de me envolver demais.

O silêncio que seguiu não foi desconfortável. Era daqueles que parecem dizer mais do que qualquer palavra.

Millie mordiscou o lábio inferior e deixou escapar, como se estivesse admitindo um segredo a si mesma.
— O Finn é diferente... mas eu não sei se estou pronta.

S/N apoiou a mão sobre a dela, num gesto tranquilo.
— Talvez você não precise estar totalmente pronta. — disse, com um sorriso encorajador. — Às vezes basta dar um passo de cada vez.

Millie a encarou por alguns segundos, como se quisesse acreditar. E então sorriu, um pouco tímida, mas agradecida.

Já na saída, caminharam juntas até a esquina. Antes de se despedirem, Millie se inclinou com aquele jeito provocador que só ela tinha.
— E você? Não vai me contar o que sente pelo seu chefe?

S/N engasgou na risada.
— Millie, não começa.

— Ah, começa sim. — Millie piscou, divertida. — Eu vejo seus olhos brilhando quando fala dele.

S/N tentou desconversar, mas o rubor que subiu pelo rosto a entregava. E, no fundo, ela sabia que a amiga tinha razão.

De volta ao escritório, enquanto ajeitava os papéis sobre a mesa, as palavras de Millie invadiam a mente dela. Finn, para Millie, representava um desafio, permitir-se sentir de novo. Para S/N, o desafio tinha um nome, Aidan.

Duas amigas, dois caminhos diferentes, mas a mesma dúvida, até onde vale a pena arriscar o coração?

Minha esquentadinha - Aidan GallagherOnde histórias criam vida. Descubra agora