Ep 01

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O despertador tocou antes mesmo que o céu clareasse.
Um som agudo, insistente, que cortava o silêncio como se quisesse lembrar S/N Copper de todas as vezes que ela havia falhado antes.
Respirou fundo, tentando ignorar o peso nos ombros. Não podia errar dessa vez.

No abajur, o ponteiro marcava 05:47.
O cheiro de café recém-passado vinha da cozinha, não porque ela tivesse preparado, mas porque a vizinha do andar de cima sempre começava o dia assim, e o aroma descia pelo corredor, invadindo seu pequeno apartamento.

A cada passo pela casa, S/N conferia mentalmente:
— Bolsa... aqui.
— Carteira... também.
— Chaves... — parou, revirando o sofá até encontrá-las entre as almofadas. — Aqui.

Vestiu o casaco leve e se olhou rapidamente no espelho da entrada. Olhos cansados, mas firmes. Cabelo preso às pressas, mas de um jeito que não gritava "atrasada". Um último suspiro, e lá estava ela, atravessando o corredor, descendo os degraus com o coração em ritmo de maratona.

O ar da manhã estava frio, carregado de umidade. Boston parecia ainda adormecida, exceto pelo som distante de pneus molhando o asfalto e o rangido ocasional de algum ônibus freando na esquina.
Entrou no carro, ligou o aquecedor, e iniciou o trajeto com as mãos geladas no volante.

O GPS indicava vinte minutos até o trabalho. No rádio, uma estação qualquer falava sobre trânsito e chuva prevista para o fim da tarde. Tudo parecia calmo... até que, a poucas quadras da empresa, algo cortou sua atenção.

A vaga perfeita, a única livre na rua, estava bem diante dela. S/N respirou aliviada, girou o volante para se alinhar e...
Um carro sedã preto, brilhante, de vidros escuros, entrou de lado, ocupando o espaço com a precisão de quem já estacionou ali mil vezes.

Pisou no freio bruscamente.
O coração, antes acelerado por ansiedade, agora batia em puro impulso.

— Tá de brincadeira comigo... — murmurou, apertando o volante.

Abriu a porta, sentindo o frio bater contra o rosto. De dentro do carro de luxo, um homem saiu. Alto, terno escuro, cabelo bagunçado como se tivesse sido moldado pelo vento.

— Ei! — a voz de S/N cortou a rua. — Você acabou de roubar minha vaga!

Ele virou-se, lento, como quem não tinha pressa para nada.
— Roubar? — arqueou uma sobrancelha. — Não vi seu nome escrito nela.

O tom calmo dela contrastava com o leve sorriso no canto da boca dele.
S/N cruzou os braços. — Pois devia ter visto meu carro, estava manobrando.

— Talvez — disse ele, dando de ombros. — Mas talvez você estivesse lenta demais.

A frase caiu como um desafio.
Os olhos dela se estreitaram. Não era só arrogância, era a tranquilidade com que ele dizia, como se estivesse acima da situação.

— Ótimo. — S/N deu um passo para trás. — Aproveite sua vaga. Espero que trate seu carro melhor do que trata as pessoas.

Ele apenas inclinou a cabeça levemente, observando-a passar. Não disse mais nada.
Mas, quando ela se afastou, sentiu o peso do olhar dele permanecer por um instante a mais do que o necessário.

S/N entrou no prédio, tentando afastar o episódio da cabeça.
Ainda tinha um primeiro dia inteiro pela frente.

...

Minha esquentadinha - Aidan GallagherOnde histórias criam vida. Descubra agora