40. Escuridão

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Da terra fechada,

onde o sol não toca,

nasce a semente

que não pediu permissão para existir.

No escuro húmido do solo,

ela aprende a esperar.

Aprende que a noite

também é ventre.

A dor é inverno:

vento que corta,

geada que parte ramos,

céu baixo que parece não acabar.

Mas é no frio

que a seiva se recolhe,

que a raiz se aprofunda,

que a árvore decide

em silêncio

não cair.

O que parecia apodrecer

transforma-se em húmus.

O que pesava

torna-se sustento.


E um dia —

sem aviso —

o caule rompe a terra.

Não é força,

é insistência.


A chuva, que antes afogava,

passa a lavar.

As lágrimas regam o campo

onde algo novo

se atreve a nascer.

O tronco guarda cicatrizes,

anéis de tempo,

provas de tempestades atravessadas.

São mapas invisíveis

para quem sabe ler

a linguagem das árvores.

Outros reconhecem-se ali.

Quem também enfrentou o vento

sorri ao ver folhas brotar

onde antes só havia cinza.

E quando a flor se abre,

não apaga o inverno.

Honra-o.

Porque a luz

só encontra sentido

quando sabe

de onde veio a sombra.


Esta é a alquimia da natureza:

quando a queda vira raiz,

quando a noite vira terra fértil,

quando a dor aprende

a florescer.

Levada pelo VentoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora