Os livros usados contam histórias mesmo quando as letras se calam.
O desenho das palavras denuncia mãos antigas, máquinas de escrever que respiravam ritmo e metal. A tipografia revela décadas passadas, capas pensadas por olhares de outro tempo, cores que já não se escolhem assim.
Os livros também envelhecem.
E envelhecem bem.
A fragilidade das páginas conta que viajaram. Que dormiram em estantes altas, respiraram pó, mudaram de casa, mudaram de dono. Que foram abertos em noites longas e fechados com suspiros. Tocaram corações — mais do que um, mais do que poucos.
Dentro deles vivem vestígios humanos:
um bilhete de comboio esquecido,
uma lista de compras escrita à pressa,
uma dedicatória para alguém que foi amado,
uma frase sublinhada por quem precisava exatamente daquelas palavras.
Cada marca é um sussurro.
Cada dobra, uma passagem vivida.
Livros usados não são apenas livros.
São encontros adiados.
São histórias que ainda procuram mãos novas para continuar.
Por isso, não os recuses.
Reutiliza-os.
Troca os que já não te tocam — eles podem envolver outros nos seus enredos.
E aceita os que vêm dos outros,
porque entre páginas gastas
podem morar as histórias
que ainda te vão transformar.
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Levada pelo Vento
PuisiCompilação de poemas e reflexões sobre a vida e como eu a vejo e sinto através do tempo. Sempre a ser alterada e acrescentada porque a única constante na vida é a mudança.
