Capítulo um

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Cadáveres correm atrás de nós. Desejando nossa carne, nossas entranhas. Achou que zumbis comiam somente cérebros?

Está enganado.

Eles devoram cada centímetro de carne que você oferecer. Te devoram também. Para eles quanto mais, melhor. Não conseguem correr tão rápido quanto nós, só que mesmo andando devagar, conseguiram infectar quase todos nós. Nem armas pesadas os fizeram parar. Mas existe uma forma eficaz de matar essa criatura: acertando seu cérebro.

Há três semanas, depois de estourarem no país, os zumbis tomaram conta de tudo. Aprendemos muito sobre eles, como por exemplo: barulhos o atraem, luz, seu cheiro. Mas com certeza ainda há muito o que aprender. Temos bastante tempo convivendo juntos mesmo.

A morte pode chegar da forma mais inesperada possível. E quando digo inesperada, realmente é surpreendente.

Não que a morte fosse inalcançável na atual situação apocalíptica; mas de fato nunca estaremos totalmente confiantes no que ela nos proporcionará. O céu existe? O inferno está ativo? Sobre o inferno, tenho absoluta certeza na teoria em que o inferno veio até nós.

Meu avô acredita que tudo isso seja temporário, que logo voltaremos para nossa rotina antiga. Já a minha avó, reza todos os dias pedindo proteção. Deus que me perdoe, mas essa chacota com a humanidade está além de um desafio de superação divino.

A pior parte, é viver com energia racionada. Poçante o nosso trailer que deixa rastros e poças de óleo, tem a energia direcionada à geladeira e as luzes. Usamos o mínimo, para durar mais.

- Venha jantar conosco, Hailey. - minha avó chamou.

Ah, a melhor parte de um apocalipse é viver num acampamento de verão. A fogueira, a comida assada nela, faltou uns marshmallows, mas podemos observar as estrelas. Tirando a parte de que podemos ser mortos a qualquer momento, é a mesma coisa.

Desci os degraus da porta do trailer entediada.

- O que temos para jantar hoje? - perguntei.

- Peixe. - minha avó respondeu.

- Que surpresa. - falei irônica.

- Credo, você está cada dia mais parecida com seu avô. - ela rebateu.

- Não é todo dia que Hailey recebe um elogio, não é? - meu avô entrou no jogo.

Gargalharmos juntos.

As horas seguintes foram mais calmas que o habitual. Sem piadas ruins, sem reclamações, ficamos apenas curtindo a vista para as estrelas. Eu poderia acampar para sempre, mas a intuição é maior. Não creio que dure muito nossa estadia aqui.

- Eu vou dormir. - minha avó disse ao levantar-se. - Façam vocês os turnos.

A divisão de turnos de vigia, infelizmente não beneficia todos nós. Como durmo tarde, fico acordada até as quatro e meia da manhã em cima do trailer. Meus avós revezam entre si, um dia sim e outro não, e eu fico quase todos os dias. Olhar cada centímetro da floresta dá medo, mas acho que ver um zumbi seria pior do que uma alma penada ou um psicopata com uma cerra elétrica. Talvez eu e o psicopata possamos brincar com as cerras elétricas juntos, já que meu avô também tem uma. Ah, não esquecendo dos humanos, aqueles típicos civis que fazem de tudo para sobreviver, inclusive matar e roubar. Acho que prefiro um zumbi agora.

Agora, passam das 3:15, e estou anotando no meu caderno quem ronca mais naquele trailer. Um tiro seria mais silencioso.

É incrível como o tédio age de pessoa para pessoa.

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