Acordei e quando desci as escadas me deparei com uma sala toda enfeitada para o natal, nunca tinha visto uma decoração tão linda quanto aquela. Aproveitei o clima para arrumar o meu quarto, e como de costume fiz uma arvore de livros, empilhando todos eles e colocando o pisca-pisca. Tia Ana subiu as escadas voando, praticamente, e gritou na porta ‘’ – Feliz natal minha linda! – ‘’ correu e me deu um de seus abraços sufocantes, me balançando para um lado e outro. ‘’- Não se esqueça de se arrumar para a ceia, hoje faremos uma coisa diferente de todos os anos – ‘’ Fiquei matutando aquilo em minha cabeça, ‘’diferente?’’ como assim? eles sempre falam de planos para o futuro em toda a ceia. Mas a curiosidade não me matava mais do que saber que naquele natal não teria o abraço das pessoas que mais amo, minha mãe e meu pai.
Abri meu guarda-roupa e passei horas paradas encarando ele. Bem que tia Ana tinha razão, precisava dar uma repaginada no meu guarda-roupa. Me virei com a roupa e os sapatos e desci para a ceia
Chegando ao andar de baixo, estranhei todos sentados na mesa reunidos, não havia musica como antes. Tio Cesar escandaloso como sempre, grita meu nome e fala ‘’ – Venha se servir menina, se não sua tia não deixa comida para ninguém –‘’ e todos caíram na risada, matando minha tia Lucia de vergonha.
Comemos, bebemos e até que a tão esperada meia-noite chegou, todos foram para o sofá e lá começaram a contar histórias sobre os tempos de quando eram jovens, até que meu tio decide falar sobre a minha avó, que eu nunca tinha ouvido nada sobre ela, apenas sabia que ela morreu de infarto.
‘’ – A avó de vocês era muito aventureira, recordo-me de um dia em que ela foi conosco numa balada, morremos de vergonha. Mas ela olhou para nós e falou ‘’ eu não me importo, problema é de vocês, vou me divertir porque esse whisky aqui ta muito melhor do que a cara de vocês ‘’ – ‘’ todos caíram na risada. Aproveitando o momento todos queriam contar um pouco do que lembravam, minha tia decidiu contar também das coisas que se recordava
‘’- Lembro-me das histórias de quando ela era jovem, ela adorava contar às besteiras que fazia. Disse que um dia ela fugiu de casa no meio da tarde, só para ver o pôr do sol com os amigos na beira da praia. Ela adorava sentir a brisa do vento, ver as ondas, e sair à noite. Costumava dizer que a vida é uma só, e que não iria ficar parada vendo novelas que começam e acabam com finais felizes, ela odiava quem falasse em final feliz, sempre dizia que se tem um tempo para ser feliz, é agora, porque o futuro de amanhã é o presente de hoje – ‘‘.
Eram tantas histórias, que a cada uma ficava fascinada com tamanha esperteza dela. Até que chegou a pior parte da história, o fim, que não foi o mais feliz e sim o mais triste. Meus tios e tias se recusaram a tocar muito no assunto, por mais que fizesse tempo que ela teria morrido aquilo mexia muito com eles. E para encerrar aquela noite, meu tio fez um brinde a minha avó, e ao meu pai que agora deveriam estar juntinho lá no céu.
Fui ajudar minha tia na louça, e passamos a noite conversando e contando histórias, ela contou do ano dela e eu contei do meu ano para ela. Ela começou a conta histórias sobre a minha avó e o meu pai.
‘’ – Às vezes, você lembra muito o teu pai, ele era igual a você, caseiro gostava de ler e estudar, era o CDF da família e foi o primeiro a se formar, se formou em muitos cursos. Sua avó passou a vida implicando com ele, o mandava largar aqueles livros e ir para a balada curtir com os amigos. Até que ele se soltou mais, começou a sair mais fez amigos, até que seu melhor amigo pegou a sua primeira namorada. E tudo voltou de novo, livros e mais livros, sua avó não sabia o que fazer e nem o seu avô que mesmo na cadeira de rodas queria ajudar. Bom, até que você sabe, seu avô caiu da escada e morreu. Aquele foi o pior dia para o seu pai e para todos nós –‘’
Lagrimas escorriam pelo rosto da minha tia, impossíveis de serem seguradas por muito tempo. E naquele momento eu parei para pensar em muita coisa. Minha tia pediu para ficar sozinha, a saída era subir e cair na cama.
Passei pela sala, e todos estavam caídos no chão, um por cima do outro. Passei direto e na ponta de pé subi as escadas. Abri a janela, e aquela brisa do vento fresquinho invadiu o meu quarto, fazendo as cortinas, papéis voarem. Debrucei-me na janela, e o brilho da lua refletia toda a rua, enfeitada e cheia de enfeites de natal. Era a noite mais linda que eu já tinha visto em toda minha vida.
Aquele momento, eu só agradeci a Deus por tudo, pela minha família estar aqui comigo no momento que mais preciso delas.
