Sai vestindo meu casaquinho preto, quando quase esbarro no meu tio, que já vinha fazendo festa dentro do carro junto com os meus primos por eu ter passado de ano. Quando estava a alguns metros longe de casa, meu outro tio passa por mim na rua e faz questão de abrir o vidro e gritar feito louco mais os meus outros tios ‘’- Parabéns Clarice, menina esperta, puxou ao tiozão!’’ Apenas sorria e acenava, enquanto as pessoas passavam olhando para mim na rua.
Fui a varias escolas, até que consegui vaga em uma que por vista parecia ser uma ótima escola. Nelson Kimberly, era o nome da escola, havia boatos que lá havia morrido os inspetores. Sobre esse assunto não quis entrar a fundo, o que me interessa ali é estudar. Sai em busca de um shopping por ali, mas o que mais tinha por ali eram botecos e casas. Peguei um táxi e fui para o shopping da cidade.
Entrei no shopping disposta a comprar as roupas e sair dali voando, sai cortando caminho pelos corredores de cabeça baixa, quando esbarro em um dos meninos do grupo de estudantes que acabará de sair da biblioteca. Foi livro para todo lado, queria abrir um buraco e colocar minha cabeça lá dentro e nunca mais sair. Agachei e fui ajuda-lo a pegar os livros, gaguejando sussurrei um pedido de desculpas para ele, que me respondeu com um sorriso radiante e falou ‘’- não foi nada ‘’.
Odeio quando alguma coisa do tipo acontece, nunca sei o que fazer, por isso evito sair de casa, não sei agir em casos assim.
Entrei em varias lojas, mas sai com poucas sacolas de lá. Passei em um barzinho de café que havia por lá, para tomar uma xícara de café com bolinhos de queijo quente.
Estava lendo meu livro e tomando meu café, quando me deparo que o menino que eu teria esbarrado, estaria ali ao meu lado. Olhei para cima, e pensei comigo mesma ‘’- Meu Deus, o que eu faço?’’. Estava disposta de engolir todos os bolinhos de queijo e beber aquele café correndo, para que ele não puxasse nenhum assunto comigo. Mas ao invés de agir feito uma passa-fome que nunca tivera visto café e bolinhos de queijo, tentei agir normalmente, feito uma pessoa normal.
Mas era difícil, porque mesmo virada para ele, conseguia o ver olhando para mim toda hora e sorrindo. Estava ficando incomodada com aquela situação. E fico imaginando como minha mãe se sairia daquela situação, tipo de pensamento que ninguém costuma pensar, mas é eu penso.
Quando me dei conta, ele já havia se mandado. Abri um sorriso e falei baixinho ‘’-Graças a Deus’’, quando viro para o outro lado, percebo que ele apenas mudou de lugar. Estava contando os minutos para engolir todos aqueles bolinhos de queijo rápido e me mandar daquele lugar.
Quando enfim, termino de comer, chamo o garçom para pagar a conta. Levanto da cadeira, pego meu livro e as sacolas que havia deixado ao pé da cadeira, e saio em direção à saída do shopping. Já eram oito horas da noite, o shopping ia esvaziando aos poucos, mas quando me dou conta, percebo que tem alguém me seguindo. Primeiro pensamento que passa na cabeça de uma menina que nunca saiu de casa, e que perdeu o pai é ‘’Vou ser assaltada’’. Parece ser um pouco absurdo, mas é a primeira coisa que se pensa quando esta sendo perseguida.
Talvez estivesse errada, e extremamente louca. Apressei o passo mais rápido ainda para a porta de saída.
Quando chego à saída, vejo pelo reflexo da porta que não havia ninguém atrás de mim, e que talvez estivesse ficando louca, ou paranoica. Por um momento pensei ‘’ Calma Clarice, você apenas derrubou os livros de um menino que você nunca viu na vida. ’’ Mas mesmo assim, não era motivo para tamanha paranoia.
Vou ao ponto de táxi, me borrando de medo de ficar lá sozinha até o taxi chegar. Coloco os fones no ouvido e fico observando as nuvens do céu, como costumava fazer quando era criança e tivesse que esperar por algo.
Quando me dou conta, o sujeito do livro e do café estava do meu lado novamente. Não pode ser, virou perseguição? Respirei fundo, e torci para que o taxi chegasse logo, a tempo que ele não pudesse puxar conversa comigo.
E mais uma vez ele olhava pra mim e sorria, tinha vontade de virar e perguntar ‘’- Com licença, por acaso estou com um nariz vermelho ou uma roupa de palhaço para você estar olhando para mim de cinco em cinco minutos e rindo? ‘’. Sim essa era a minha vontade. Até que, o bendito táxi chegou.
Entrei nele, e fui rumo à casa da minha tia, dando pulos de felicidade por dentro, por estar indo para casa, e longe daquele sujeito esquisito que eu tivera derrubado os livros.
