Uma curandeira incapaz de curar-se.

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       Samanta acordou em um sobressalto com os gritos de Mabel no andar de baixo.

- Glooooooria aaAaaa! - Mabel exclamava a plenos pulmões - Uma barata!

Levantou-se da cama, cambaleando até a porta do quarto.

- Cala a bocaaaaa! - gritou Samanta, e fechou a porta com força, logo em seguida. Deitando-se novamente em sua cama aconchegante.

Após a interrupção do seu sono naquela manhã de sábado, o dia em que ela aguardava ansiosamente, pois poderia dormir até tarde, Samanta permaneceu estirada na cama, olhando para o teto e recordando-se da sua visita ao quartinho proibido na noite anterior. Abriu a gaveta da mesa de cabeceira, onde a caixinha com o bilhete permanecia intacta ao lado de algumas revistas. Perguntou se seria uma boa ideia contar para o seu pai o que havia encontrado, mas, lembrou-se imediatamente da história com o whisky e da conversa dos dois no dia anterior. Se ele descobrisse que ela descumpriu mais uma das suas ordens quanto a não mexer nas coisas da sua mãe, ele passaria a cogitar medidas mais severas. Optou por não contar nada, e manter tudo que aconteceu em segredo.

Ao descer as largas escadas de mogno, encontrou uma Mabel chorosa, sentada no sofá da sala de televisão.


- O que aconteceu? - perguntou, bocejando.

- Aquele negócio nojento pousou em meu braço. - Mabel choramingava enquanto limpava o braço repetidamente.

- Não seja fresca, é só uma barata. - E sentou-se na poltrona onde seu pai habitualmente se sentava ao chegar do trabalho.

- A revista de Outubro chegou. Glorinha comprou na banca quando foi à feira mais cedo. - Mabel disse entusiasmada, já esquecendo-se do infeliz incidente com a barata.

Mabel era uma típica garotinha de doze anos, envolta em sua série de pequenos problemas advindos da pré-adolescência. Os garotos bonitos e mais velhos que ainda não lhe davam atenção, e o desejo de ser como as garotas da revista adolescente que ela lia todos os meses, assiduamente. Espelhava-se em Samanta, pois, em seu íntimo, acreditava que sua irmã era ainda mais especial do que aquelas garotas. Sua irmã estava sempre cheia de si, e indiferente à opinião alheia. Esta admiração era constantemente ocultada, e as brigas frequentes das duas faziam com que Samanta sequer imaginasse o quão importante e admirável ela era para Mabel.

- Quem está na capa deste mês? - Samanta perguntou, esforçando-se para conter a empolgação que também sentia quando a revista chegava.

- O John Travolta... - Mabel fez um olhar de insatisfação - Não o acho tão bonito.

- Ah, você não sabe o que é beleza ainda, ele é lindíssimo. - Samanta respondeu tentando pegar a revista da mão de Mabel - Olha só, veio um pôster...

- Pode ficar com esse... odiei. - disse Mabel, pegando a revista de volta. - Vamos ler o horóscopo. - Mabel pigarreou - Câncer! Olha só, aqui diz que combino com o Rob Lowe, ele é de Peixes.

A última linhagemHistórias para pegar e não largar. Descubra agora