Relato 8 - O Jogo do amor

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Até hoje eu não acredito que arrisquei o amor da minha vida numa só partida. Que tipo de menino apaixonado aceitaria uma proposta dessas? Bem, colocando-se em meu lugar acredito que muitos outros fariam o mesmo.

Na aula do dia seguinte, Danilo e eu separamos 5 minutos do intervalo pra pensarmos numa forma de decidir quem ficaria com o coração da Kelly; então eu tive a brilhante ideia de criar um jogo de força física, mesmo sabendo que Danilo era mais forte que eu.

Decidido, peguei um papel em branco e comecei a desenhar algo parecido com uma quadra de tênis. Tirei essa ideia após fixar minha imaginação nas formas das paredes da nossa sala de aula sendo vista sem o telhado a partir de um helicóptero. Sendo assim, quatro linhas formaram um retângulo na horizontal e uma quinta linha na vertical o dividia ao meio, deixando o retângulo com dois lados iguais. Minha ideia era genial; apesar de ser suicídio. Expliquei pra Danilo todas as regras do jogo que eu acabava de criar e que colocaríamos em prática ao final da aula. O local escolhido foi nada mais nada menos que no quintal da minha casa, em frente ao poço que já nem tinha mais água.

No final da aula eu avistei Rafaela no corredor, acelerando os passos pra iniciar uma nova corrida, mas dessa vez não haveria corrida alguma; deixei Rafa na mão por uma causa nobre. Saí da escola muito mal acompanhado pela presença de Danilo; apenas ele, sem os dois amigos ou qualquer outro alguém e fomos até minha casa, onde encontramos meu pai sentado no terraço observando o vazio que reinava na rua. Como orgulhoso que sou, eu jamais admitiria pra meu pai que aquela visita de Danilo seria pra fazermos uma disputa pelo amor de uma garota, então combinamos a desculpa de que faríamos alguma atividade da escola ou brincaríamos com meus bonecos favoritos no quintal. Meu pai, sem nenhum interesse de ver aquela asneira, estranhou a visita de um "colega" meu da escola, entrou, fechou a porta e preferiu ir fazer nosso jantar que geralmente não alternava nas opções.

Rapidamente eu peguei um graveto e fiz o mesmo desenho do retângulo numa parte de areia no quintal. Danilo e eu ocupamos a posição central da linha e cruzamos os braços de forma que cada um apoiasse a mão nos ombros do outro e as cabeças ficassem em contato uma com a outra. O jogo funcionava da seguinte forma: O mais forte; sendo o primeiro a empurrar o adversário pra fora do retângulo, vencia a partida; mas não só a partida, pois o mais forte também seria o dono do coração da Kelly. E foi assim, simples e rápido como uma jogada profissional de xadrez.

- Três, dois, um, já! - Gritou Danilo, que parecia ansioso, pois sabia que era mais forte que eu.

Não demorou muito pra que meu corpo partisse do centro do retângulo até as extremidades; então eu lembrei do Robin, meu boneco favorito do qual batizei de "O homem mais forte do mundo" e me inspirei nele. É claro que isso não funcionou na prática e apesar de toda a força depositada nos ombros de Danilo, e eu perdi feio, sendo empurrado com facilidade numa só tomada até o final da linha. Como pode isso? Perdi no jogo que eu mesmo excogitei e agora o amor da Kelly tinha um novo e único dono.

Lembro-me do sorriso que ele elaborou só pra zombar da minha infelicidade naquele momento. Ele me olhava de lado e levantava apenas um lado do lábio superior da boca; Danilo estava fazendo o que fazia de melhor. Depois daquela emocionante partida Danilo provou de uma vez por todas que era mais forte que eu, só não conseguiu sentir o mesmo amor que eu sentia por Kelly; jamais sentiu.

Triste foram os próximos anos que sucederam esse acontecimento; pois minha memória fez questão de manter acesa toda lembrança relacionada a essas três figuras por muito tempo; até hoje, na verdade. Então, amigo leitor; deixemos essa história triste de lado, pois agora é hora de dar adeus ao bairro do poço.

O primeiro amor de um artistaOnde histórias criam vida. Descubra agora