03. Chilly

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Dahra Lisbon tinha um problema. Não que ela tivesse me falado algo sobre. Não. Minha melhor amiga não me informou esse fato, ela nunca foi de despejar seus problemas em outras pessoas.

Porém, o universo podia perceber quando dra. Lisbon tinha um problema.

Ela não descontava a raiva em ninguém, mas se fechava em si mesma até decidir o plano de batalha com que iria esmagar seu novo inimigo, o que ela definitivamente fazia todas as vezes.

O problema é que eu me preocupava bastante com isso. Não era um comportamento muito saudável.

— Lis? — chamei finalmente, depois do pequeno debate interno sobre se interromperia sua concentração e escrita furiosa em um bloco de notas ou não.

Claramente a contragosto, ela levantou os olhos de suas anotações, possivelmente já reconsiderando a ideia de ficar sentada à mesa da cozinha junto comigo ao invés de voltar para a biblioteca e para a mesa ridiculamente cara que fez Stark reformar para ela.

— Sim?

— Que foi que aconteceu? — pousei a caneta que usava sobre minhas próprias anotações.

— O que aconteceu é que Stark pensa que eu sou a babá dele. Eu tenho cinco advogados de confiança só para lidar com as besteiras que ele faz no cotidiano. E, ainda assim, ele consegue se meter em encrencas internacionais de maneira que nem mesmo antes haviam sido criadas. Ele está literalmente fazendo o Direito Internacional se movimentar para criar tipos penais novos, a fim de puni-lo por certas condutas. Isso é uma coisa inédita na história.

— E é só isso que está te incomodando? — tentei não ser condescendente, mas não sei se obtive muito sucesso.

Dahra estreitou os olhos negros para mim.

— Sim — respondeu ríspida, decidida... para imediatamente depois latir: — Não! Não é só isso. — Desistiu das anotações e de fingir que estava tudo bem. — Eu... — passou a mão pelo rosto, cansada. — Bucky faz uma careta quando eu tento pagar minha parte da conta.

O quê?

De todas as coisas inesperadas que podia esperar, aquela definitivamente não era uma delas.

— Quando saímos para comer, ele sempre faz uma careta quando eu insisto em pagar minha parte.

Tinha muito orgulho de todos os meus títulos acadêmicos, mas nenhum deles parecia importar agora — quando não conseguia, por mais que me esforçasse, entender aonde ela queria chegar.

— Ok...?

— Mia! — exclamou exasperada.

— O quê?! Eu não estou entendendo...

— O problema é que eu não preciso de um cara que acha que não posso pagar minhas próprias contas. Na verdade, me deixa reformular. Eu não preciso de ninguém achando que precisa pagar minhas contas. Eu pago minhas contas.

Oh!

Agora podia ver o problema. E, de fato, ele era bastante grave. Com bastante cuidado, escolhi as próximas palavras:

— Lis, você já tomou um momento para pensar que ele não está fazendo isso para te diminuir? Aliás, ele nem mesmo deve perceber. Não estou tentando justificar o que quer que seja, — subi um pouco o tom ao perceber que ela abria a boca para me interromper, — apenas acho que você devia conversar com o cara. Afinal, Barnes passou décadas no gelo. Literalmente. A vida era muito diferente. Não acho que ele tenha a intenção de te machucar ou irritar.

Freezing FireOnde histórias criam vida. Descubra agora